A FLIP FICOU PRETA

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A Festa Literária Internacional de Paraty está na agenda cultural de muita gente, mas de muita gente mesmo. A 15º edição que homenageou Lima Barreto e foi de 26 a 30 de julho, teve outra cara em relação as anteriores, pois trouxe em sua programação oficial a diversidade segundo a curadoria – deixa eu te ajudar a entender esse termo, teve mais autoras e autores negros, contou também com o maior número de mulheres em relação ao de homens. A curiosidade é que foi o ano de menos recursos disponíveis.

A Secretaria de Turismo de Paraty, também fez coro em relação as suas estimativas que foram diminuídas, pois esperava 30 mil pessoas e acabou recepcionando 25mil.  Em contrapartida, a sensibilidade da curadora atual, permitiu que muitas pessoas tomassem coragem para pegar estradas, voos e encarar a maratona literária que até então, sempre esteve muito descolada de boa parte da população que precisa se ver representada em todas as esferas da sociedade. Digo isso, por que nunca tive interesse em me deslocar a Paraty para acompanhar debates desconectados das realidades que vivemos. E pude perceber tal situação pela quantidade de pessoas negras que conheço e que lá estavam, tantas outras que tive oportunidade de conhecer ao longo do evento e que se hospedaram em hotéis, pousadas, circularam em bares, restaurantes, compraram muitos livros e relataram ser a primeira vez na Flip. A flip ficou preta.

Aliás, a compra de livros é um assunto que não pode ser tratado como algo menor em um evento literário, embora eu ainda esteja disposto a falar de outras coisas. Mas vamos lá, a livraria oficial do evento divulgou a lista dos dez mais vendidos, desses títulos, oito foram escritos por autores negros, uma autora emplacou dois livros nos dez mais e contra dados não existem argumentos, pelo menos era assim que falavam meus mestres de métodos quantitativos. Isso me fez recordar, a carta que a professora Giovana Xavier encaminhou à curadoria da FLIP, em 2016, ressaltando a invisibilidade de autoras negras nas programações oficiais, fato que sugere facilmente uma ação racista. O curador da época, mesmo já tendo passado por uma saia justa, ao dividir mesa com a Diva – que não era a Guimarães e nem a Bento¹, mas sim, Ela – Conceição Evaristo que nomeou as outras edições da Flip de ‘arraiá da branquidade’, tentou responder à carta, argumentando que fez diversos convites para cantores negros brasileiros, para escritores negros africanos e na diáspora, sem respostas positivas.

A curadora atual, muito mais antenada com a realidade brasileira e do mundo, lançou suas lentes para outros horizontes e proporcionou encontros muito interessantes. E ainda bem que ela e sua equipe, que devem ser mágicos, conseguiram convencer muitos negros e mulheres a participar dessa edição.

Jornais de grande circulação fizeram análises sobre os diálogos da programação oficial, mas não irei me ater a eles. Falarei brevemente de uma conversa que tive rapidinha durante a travessia do canal, com Edimilson de Almeida Pereira – que era meu conhecido de redes sociais, mas já o admirava, pois conheço parte de sua obra – momentos antes de falar sobre Lima Barreto, me segredou que era muito pouco tempo para sua apresentação. Concordei com ele e também com os jornais, que além de terem mencionado essa escassez, assumiram que ele precisa ser mais conhecido pelo público geral. Quem sabe um desses feirantes, que vira e mexe estão levando brasileiros para a península asiática – mais conhecida como Europa, o leve, e assim, ele ao retornar, já desembarque no Brasil best seller, pois o reconhecimento no exterior tem sido a tônica para que bons trabalhos sejam valorizados internamente.

Para além disso tudo, saio da Flip com boas impressões. O circuito paralelo trouxe diálogos de altíssimo nível. Deixa eu falar de minhas experiências. Não foram muitas, porque estive acompanhado de minhas filhas que necessitavam de cuidados e atenção, eu e minha esposa nos dividimos ao máximo para aproveitar, mas nem tudo pôde ser acompanhado. Vou começar falando das Casas que foram utilizadas por editoras, empresas ou coletivos e que tive oportunidade de presenciar. A Casa do Papel foi um espaço onde toda a família teve experiências com formas artesanais de produção de livros. Lá, nos deparamos com profissionais que acumulam muitos conhecimentos e experiências na arte do restauro. Na Casa Publishnews, dentre muitos diálogos realizados, acompanhei curadores e organizadores de feiras e festivais literários fora do eixo Rio-São Paulo. O ambiente de troca permitiu a absorção de muitas informações que podem ser utilizadas na organização de eventos plurais. Não é para rir, mas veja minha foto na imagem de 360º que a Publishnews publicou no Facebook, clique aqui. Na Casa da Porta Amarela, várias editoras independentes dividiam um espaço caótico e ao mesmo tempo aconchegante, as atividades que rolaram, não consegui acompanhar, lá, minhas filhas só me deixaram tomar uma cerveja, a Poética, que estava muito boa – se alguém souber mais sobre a cervejaria que a fabrica, me dê mais informações. E por fim, acompanhei alguns diálogos na Casa Malê que promoveu vários encontros, lançamentos de autores de seu catálogo e recebeu nossa diretora de marketing, Lú Bento, para um bate-papo sobre literatura infantil que rendeu algumas alfinetadas. Coisa que não foi vista ao longo da programação oficial da Flip, tava todo mundo parecendo meio compadre e comadre, ou deixa que eu chuto. A flip ficou preta.

Ainda teve o espaço do outro lado do canal, onde os movimentos sociais organizados sentaram para dialogar, venderam produtos artesanais e a produção de agricultores locais. Muitos artistas se apresentaram, escritores lançaram seus livros e a chama da justiça social esteve bem acesa.

Como o trabalho também deve ser permeado por momentos de descontração, entre uma poesia e outra, nas ruas tortas de Paraty, líamos Desakato Lírico, do poeta Cizinho Afreaka, publicado pela Ciclo Contínuo, ao ouvir nossas leituras, dentro de um restaurante muito bonitinho, estava ela, nossa Musa Superior Conceição Evaristo que chegou à porta e nos disse: – ‘A Flip ficou preta’! Depois fez um convite muito cativante. Chamou para bebericar da cerveja que leva seu nome. Recebi o convite como ordem. E aí está o registro: A Flip ficou preta.

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Família InaLivros, Família Era Uma Vez o Mundo, Suzana Matos e Conceição Evaristo. A Flip ficou preta.

Depois disso tudo, para não dizerem que fiquei muito saidinho durante o evento, indico alguns livros de autores que estiveram na programação oficial, que constam no catálogo da loja virtual da InaLivros e que você não pode deixar de ler: A Flip  ficou preta.

1) Insubmissas Lágrimas de Mulheres / Conceição Evaristo A flip ficou preta

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Onde encontrar: InaLivros

2) Um Defeito de Cor / Ana Maria Gonçalves

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Onde encontrar: InaLivros

3) Livro das Falas / Edimilson de Almeida Pereira

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Onde encontrar: InaLivros

4) O Tambor Africano e Outros Contos dos Países Africanos de Língua Portuguesa / Suzana Ventura

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Onde encontrar: InaLivros

1 Diva Bento é minha tia querida que não está mais nesse plano, nos deixou fisicamente há mais ou menos uns 3 anos.

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About the author

Léo O'Bento é educador, produtor cultural e ultimamente tem a estranha mania de transformar sonhos em realidades.