Autora do Mês – Maio – Cristiane Sobral

A InaLivros começa esse mês uma série de conversas sobre obras e autores. Vamos conhecer melhor o processo de criação de determinadas obras. A escolhida do  mês de maio foi a autora Cristiane Sobral, autora do livro Espelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção, obra escolhida para o clube de leitura Leia Mulheres Negras, realizado pela página do facebook Leia Mulheres Negras com o apoio da InaLivros.

Lu Bento: Cristiane, quando nós da InaLivros pensamos este espaço, o Quilombo Literário, a motivação inicial foi de busca por uma literatura que falasse das questões vividas pelas população negra, uma literatura que nos colocasse em posição de protagonismo e que se apresentasse ao mundo a partir de um ponto de vista afrocentrado, ou de um ponto de vista de um pessoa negra. Pra gente, isso se reflete em uma busca por uma literatura negra. Então eu vou começar com a pergunta que a gente sempre faz para os nossos convidados: Existe um literatura negra? O que é literatura negra pra você? IMG_8032

Cristiane Sobral: Não afirmo apenas uma literatura negra, em minha opinião a literatura negra tem diferentes contornos a partir de cada escritor, embora os elementos, as ferramentas de escritas sejam coincidentes, existe literatura negra, sim, há tempos. Seu marco oficial no Brasil aponta para o século XIX. Vários estudiosos da literatura, como o Prof. Dr. Eduardo de Assis Duarte, da UFMG tem traçado essa linha do tempo e apresentado grandes expoentes desse nicho de produção.

O que é literatura negra na minha concepção?

Uma literatura interessada na subjetividade negra, nas suas memórias, histórias, tradições, engajada na contação de histórias da negritude e sua ancestralidade. Nessa literatura, os escritores negros falam de si, desafiando as visões estereotipadas apresentadas pela literatura “universal”, no que se refere à representação dos personagens negros.
Na literatura negra, que pode ser encontrada com outros nomes como afro-brasileira, afro-descendente, negro-brasileira, só para citar alguns, existimos além do escravagismo e do seu legado no Brasil: Somos seres humanos, diversos, Não existe um protocolo para ser africano ou afro-brasileiro, nossa identidade é múltipla, em construção contínua, amamos, lutamos, pensamos, além da diáspora negra, com a nossa mitologia, ciência, religião, temos o direito de contar as nossas versões diante da “história única”.
Não basta ser negro para produzir literatura negra, há um compromisso estético e político nessa escrita, existem escolhas conscientes do autor, no sentido da intencionalidade da obra.

Lu Bento: Você já tem uma trajetória de escritora com textos seus publicados no Cadernos Negros, livros de poemas, e o “Espelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção” foi seu primeiro livro de contos individual publicado. “Pixaim”, o conto que abre este livro, já havia sido publicado nos Cadernos Negros. Quais outros contos já haviam sido publicados? Você já tinha o esboço dessa estruturação do livro, ou você foi percebendo as ligações entre os textos ao longo do processo de criação?

Espelhos
Cristiane: Os outros contos que já tinham sido publicados são: “Garoto de plástico”, “Cauterização”, “A Discórdia do Meio”, “O Buraco Negro”, “Bife com Batata Frita”, e “O Último Ensaio Antes da Estreia”. A estruturação do livro foi totalmente intencional e programada.
Quando resolvi publicar um livro de contos, comecei a tramar um tecido que fosse combinado, pensando nos diálogos possíveis entre os textos e temáticas.

Lu Bento:  O livro “Espelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção” nos provoca a pensar sobre identidade, sobre visibilidade da população negra e principalmente sobre relações. É um livro que trabalha o tempo todo com as noções de ver e ver visto, em diferentes níveis. A própria ideia de espelhos que perpassa toda a obra nos guiando para uma leitura reflexiva, partindo de uma visão-reflexão sobre à aparência e de questões relacionadas à estéticas, passando por uma visão-reflexão de temas relacionados a afetos, até uma visão-reflexão sobre questões psicológicas e existenciais. O que te motivou a escrever sobre esses temas?

Cristiane: A subjetividade negra, o corpo negro, são temas que têm sido pouco abordados e de forma estereotipada em nossa literatura, as nossas obras têm raros exemplos de vivências das personagens negras fora do contexto da escravatura, humanizadas, com experiências e voz. Quero saber mais sobre a negritude além do contexto do escravagismo, quem são essas pessoas, onde estão, os seus sonhos e desafios… Também as lacunas na nossa ancestralidade, os antepassados que não conhecemos, nossas raízes apagadas, a diáspora é um grande mar com muito conteúdo, muita riqueza submersa.
Isso me motiva e fomenta a minha escrita.

Lu Bento: Os nomes dos seus personagens se repetem em alguns contos e são muito contextualizados. Os Augustos negros, as meninas Ioli, as mulheres Socorros que realmente precisam de ajuda, a Celeste, o Maurício, a Olga… São nomes especiais pra você de alguma forma? Essa é uma preocupação sua ao escrever, nomear as personagens de modo que demonstre através do nome um pouco da personalidade delas?

Cristiane: Sim, não escolho nomes ao acaso, na verdade os nomes são geradores e intensificam a construção das personagens, levo muito tempo para escolher os nomes, não concluo um texto enquanto não acho um nome adequado. Sim, são nomes especiais, personalidades que dão vida à ficção.

Lu Bento: A primeira parte, “Espelhos”, fala muito sobre negritude e a falta de reconhecimento dessa negritude. Em “Pixaim” a menina tem sua negritude camuflada pelo alisamento dos cabelos, mesmo contra seu desejo. Em “Garoto de Plástico” e “Cauterização”, as personagens estão presas a um modelo embranquecido de existência até conseguirem olhar para si mesmos e perceberem sua negritude. Em “Maria Clara” a menina tem a sua negritude negada para ser aceita como filha de um casal branco. Em “A Discórdia do Meio” há uma relação tensionada entre irmão pelo fato de uma ser negra e o outro ser mestiço e ambos terem que lidar com essas identidades raciais. Enfim, gostaria muito que você falasse brevemente sobre os textos desta parte do livro.

Cristiane: Nessa parte do livro, as identidades estão em confronto com a realidade cotidiana do enfrentamento do racismo em nosso país, cada um com suas escolhas, perspectivas, mas sempre instigados ao conflito, com a possibilidade de ruptura. Quanto mais a consciência racial e o autoconhecimento, maior o empoderamento das personagens.

Os personagens têm muitos desafios alguns tomaram um caminho diferente conforme se deu o processo de escrita, percebi que isso faz sentido, considerando o meu interesse em construir histórias além dos maniqueísmos de bem e mal. É preciso ouvir a voz dos personagens no processo de composição literária e exercitar o desapego. Em certas passagens, a realidade é hiper realista, surrealista, beira o absurdo, em muitos momentos senti a necessidade de romper algumas convenções que extrapolam o realismo, para que os confrontos pudessem existir e provocar o leitor.

Lu Bento: A segunda parte, “Miradouros”, creio que os encontros e desencontros perpassam todos os textos. Eles nos convidam a refletir sobre desejos e sobre transformações em modos de ver a vida e as relações interpessoais. Os protagonistas passam por situações que lhes possibilitam uma mudança de atitude diante de uma situação. Qual era a sua expectativa com os textos desta parte?

Cristiane: Miradouro é um local de onde se pode enxergar, mirar, um horizonte largo. Nessa parte do livro, os personagens vão se resolvendo no percurso. São convidados a nascer. Nos três últimos contos, há certa névoa no horizonte, é difícil para cada um dos protagonistas, que parecem perdidos, a visualização de saídas, mas eles mergulham em si mesmos. Quando parecem derrotados, encontram o seu próprio caminho. Gosto muito dos mistérios que envolvem as histórias das pessoas, seus paradoxos, as especificidades que compõe cada indivíduo, sua sombra e sua luz.

Lu Bento: A terceira parte, “Dialéticas da Percepção” tem seu foco na morte e na solidão. Todos os contos tangenciam esse tema de uma maneira muito intensa, e trabalham de alguma forma o olhar para si mesmo. Eu destaco especificamente no último texto, a fala do personagem Pedro:”Se você se enxerga diante de um espelho negro, aprenderá a conviver com as suas sombras, com as suas luzes, alterando a sua percepção.”. O que você tem a falar sobre essa terceira parte do livro?

Cristiane: Esse último portal é um caminho de dor, sentimento inevitável diante da invisibilidade do negro nesse país, da exclusão social, da solidão da mulher negra, da exploração do corpo do homem negro, da sua sexualidade, do capitalismo e dos seus mecanismos de padronização dos sujeitos. Mas a morte e a dor também são reveladas além do pensamento judaico cristão, a morte dos sujeitos aí, também tem seu desabafo, nem sempre como uma rendição diante das dificuldades. Alguns contos permitem a reconstrução, a resiliência diante da dor, mas outros não. A tridimensionalidade humana é destacada, sem maniqueísmos de mal e bem.

Lu Bento:  O livro está dividido em 3 partes, cada uma com 7 contos. Acredito que essa estruturação não foi por acaso, e gostaria que você falasse um pouco sobre isso. O número 7 me remeteu imediatamente a ideia de 7 anos de azar, relacionadas a quebra do espelho. Em cada uma das partes há um texto que provoca um quebra em relação aos demais. Na primeira parte, creio que o texto “O buraco negro” traz essa quebra ao falar de uma depressão e sua superação. Na segunda, “Homem bom entregador de pizza” talvez exerça essa função e na terceira, “Espelho negro” fala de uma mudança da perspectiva de reflexão, da aparência/estética para os reflexos de espelhos negros, que refletem memórias e ancestralidade. Essa é uma visão pessoal minha. Você pensou em alguma dessas coisas eu escolher essa estrutura para o livro?
Tudo nesse livro foi milimetricamente pensado. 21 contos, que são reduzidos na numerologia ao número 3, número chave no processo da criatividade e da comunicação. Novamente temos o 3, pois o livro tem três capítulos, três portais que vão além da dualidade do mal e do bem, eu queria muito propor isso.

Cristiane: Quanto ao número 7, ele fecha e abre muitos ciclos, sete dias da semana, sete cores do arco-íris, sete orixás na umbanda, cada período lunar tem sete dias, enfim. Eu quis trabalhar com ciclos, sete contos, em três portais, totalizando 21 contos, o três novamente, símbolo mágico da comunicação, corpo, mente e espírito. Três é um número ótimo pra quem quer trocar ideias e escrevi o livro considerando essas perspectivas.

Outro aspecto. Os sete contos foram agrupados intencionalmente, o primeiro portal, Espelhos, aborda os desafios da identidade, o segundo, Miradouros, revela identidades em confronto com a perspectiva de mudança, seus desafios e no terceiro portal, a morte é um caminho para a vida, para a transformação. A morte também revela a necessidade do momento limite, no qual precisamos mudar o estado das coisas. Em todos os contos aparece a palavra espelho, isso foi proposital.

Lu Bento: Meu conto favorito no livro é Olga. A construção complexa da personagem e a sua reviravolta me chamaram muita atenção. Você tem um conto favorito? Ou um conto que foi mais tranquilo de escrever, ou que você gostaria de destacar de alguma forma?

Cristiane: Não tenho um conto favorito, é difícil escolher. Cada um tem um aspecto que me fascina, pelo bem ou pelo mal, além disso, me provocam, são pessoas que eu gostaria muito de encontrar e conhecer, isso me desafia a escrever, a contação de histórias, a invenção. Olga por exemplo, que loucura, eu não sabia onde ela poderia chegar, tão inesperada, amo a sua impulsividade e o desapego diante das situações. Alguns personagens me incomodam também, outros provocam profunda reflexão. Depois que escrevo procuro me distanciar e ler novamente, como leitora. É sempre um aprendizado.

Lu Bento: Vamos a mais um pergunta padrão da InaLivros: Nós queremos muito estimular novos escritores. Desde quando a gente começou a conversar com autores, quase sempre um outro escritor teve um papel fundamental no incentivo para a publicação. Quem te incentivou, te encorajou a começar a publicar? Ou a continuar publicando, ou a publicar livros autorais e não só permanecer publicando em coletâneas?

Cristiane: Minha mãe Marina, foi uma grande incentivadora, professora de formação e dona de casa por decisão. Era muito exigente com as tarefas escolares e eu, sempre interessada pelas letras, a ponto de deixar as bonecas de lado, fui instigada por ela a respeitar a língua portuguesa e a me colocar diante dela como eterna aprendiz, sempre querendo mais, lendo mais, indo mais fundo. Meu pai, ávido leitor e cinéfilo, despertou o amor pelas histórias nos filmes, de certa forma a minha preocupação com a construção de imagens vem daí, porque assisti muitos filmes e ouvi muita música boa em casa. A música me deu o sentido do ritmo e da sua importância na construção tanto da poesia, quanto da prosa. Mas eu tinha um incômodo no que se refere a representação das personagens negras, o Quilombhoje foi muito importante pois conheci autores produzindo em outra dimensão, com outro ponto de vista no que se refere à construção da subjetividade negra na literatura. Com o grupo comecei a publicar, em 2002, incentivada por uma amiga angolana, Alexandra Aparício, historiadora, Diretora da Biblioteca Nacional na altura, intelectual e mulher feminista aguerrida, com quem compartilhava meus escritos, guardados há anos, a sete chaves. Quando comecei a publicar tive muito retorno do público leitor, isso me instigou muito a continuar escrevendo, lendo, refazendo a minha escrita.

Lu Bento:  Seus textos falam muito sobre a solidão da mulher negra. São muitas mulheres solitárias ou com relacionamentos problemáticos. Qual é a importância de ficcionalizar esse tema que é tão frequente na realidade das mulheres negras?

Cristiane: Sim, precisamos falar sobre as nossas dores, amores, também sobre as nossas vitórias. Vivemos um longo período de silenciamento, não havia tempo para falar, os corpos das mulheres negras estiveram sempre a serviço de outrem. E a dor é apenas um dos aspectos, quero ir mais fundo, no que se refere à subjetividade da mulher negra, precisamos aprender a gostar mais de nós mesmas, conversar, ficcionalizar, inventar e reinventar nossas vidas, a literatura é um portal. Existem muitos cenários de invenção para as mulheres negras, isso me interessa. Continuo atenta.

Lu Bento:Você já está preparando um novo livro? Você já publicou poesias e contos. Pensa em escrever um romance?

Cristiane: Estou preparando um livro de poesia, está quase pronto, pra esse ano ainda. Também estou finalizando a 3ª edição do “Não vou mais lavar os pratos”, revisada e com poesias novas. Sairá em 2016 também, junho ou julho. O livro de poesia “Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz, está com a 1ª edição no fim, demanda nova edição com urgência. Tenho duas peças de teatro prontas, não sei se tenho pernas pra publicar esse ano, mas quero negociar com outras editoras, porque ainda cuido de toda essa demanda de publicação na minha editora atual e quero ter mais tempo pra me dedicar à escrita. Também tenho dois infantis em fase de finalização. Pretendo lançar um romance há tempos. Para o romance, quero dedicar mais tempo, não tenho previsões, quero destruir ainda muito papel anteponcia_vicêncios de chegar ao ponto da publicação.

Lu Bento: Pra fechar, que livro você acha que todo mundo deveria ler, e porque?
Cristiane Sobral: Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo. Leiam e descubram sua potência. Contundente, avassalador, toca no fundo da alma, onde devem adentrar as grandes obras.

Lu Bento: Muito obrigada Cristiane!

 


Espelhos, MIradouros e Dialéticas da PercepçãoEspelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção

Cristiane Sobral

Ed. Dulcina

2011

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Cristiane Sobral é escritora, atriz e pesquisadora, já publicou os livros Não vou mais lavar os pratos (poemas, 2011), Só por hoje vou deixar meu cabelo em paz (poemas, 2014), Espelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção (contos, 2011) e participou de diversas antologias. Para saber mais sobre a autora e suas obras, acesse o blog: http://cristianesobral.blogspot.com.br

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About the author

Mulher-mãe preta, socióloga, professora de sociologia, especialista em Psicologia Jurídica, especialista em Gênero e Sexualidade, Pós-graduanda em Gestão da Informação Digital, servidora pública, blogueira do site A mãe preta, livreira.