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A FLIP FICOU PRETA

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A Festa Literária Internacional de Paraty está na agenda cultural de muita gente, mas de muita gente mesmo. A 15º edição que homenageou Lima Barreto e foi de 26 a 30 de julho, teve outra cara em relação as anteriores, pois trouxe em sua programação oficial a diversidade segundo a curadoria – deixa eu te ajudar a entender esse termo, teve mais autoras e autores negros, contou também com o maior número de mulheres em relação ao de homens. A curiosidade é que foi o ano de menos recursos disponíveis.

A Secretaria de Turismo de Paraty, também fez coro em relação as suas estimativas que foram diminuídas, pois esperava 30 mil pessoas e acabou recepcionando 25mil.  Em contrapartida, a sensibilidade da curadora atual, permitiu que muitas pessoas tomassem coragem para pegar estradas, voos e encarar a maratona literária que até então, sempre esteve muito descolada de boa parte da população que precisa se ver representada em todas as esferas da sociedade. Digo isso, por que nunca tive interesse em me deslocar a Paraty para acompanhar debates desconectados das realidades que vivemos. E pude perceber tal situação pela quantidade de pessoas negras que conheço e que lá estavam, tantas outras que tive oportunidade de conhecer ao longo do evento e que se hospedaram em hotéis, pousadas, circularam em bares, restaurantes, compraram muitos livros e relataram ser a primeira vez na Flip. A flip ficou preta.

Aliás, a compra de livros é um assunto que não pode ser tratado como algo menor em um evento literário, embora eu ainda esteja disposto a falar de outras coisas. Mas vamos lá, a livraria oficial do evento divulgou a lista dos dez mais vendidos, desses títulos, oito foram escritos por autores negros, uma autora emplacou dois livros nos dez mais e contra dados não existem argumentos, pelo menos era assim que falavam meus mestres de métodos quantitativos. Isso me fez recordar, a carta que a professora Giovana Xavier encaminhou à curadoria da FLIP, em 2016, ressaltando a invisibilidade de autoras negras nas programações oficiais, fato que sugere facilmente uma ação racista. O curador da época, mesmo já tendo passado por uma saia justa, ao dividir mesa com a Diva – que não era a Guimarães e nem a Bento¹, mas sim, Ela – Conceição Evaristo que nomeou as outras edições da Flip de ‘arraiá da branquidade’, tentou responder à carta, argumentando que fez diversos convites para cantores negros brasileiros, para escritores negros africanos e na diáspora, sem respostas positivas.

A curadora atual, muito mais antenada com a realidade brasileira e do mundo, lançou suas lentes para outros horizontes e proporcionou encontros muito interessantes. E ainda bem que ela e sua equipe, que devem ser mágicos, conseguiram convencer muitos negros e mulheres a participar dessa edição.

Jornais de grande circulação fizeram análises sobre os diálogos da programação oficial, mas não irei me ater a eles. Falarei brevemente de uma conversa que tive rapidinha durante a travessia do canal, com Edimilson de Almeida Pereira – que era meu conhecido de redes sociais, mas já o admirava, pois conheço parte de sua obra – momentos antes de falar sobre Lima Barreto, me segredou que era muito pouco tempo para sua apresentação. Concordei com ele e também com os jornais, que além de terem mencionado essa escassez, assumiram que ele precisa ser mais conhecido pelo público geral. Quem sabe um desses feirantes, que vira e mexe estão levando brasileiros para a península asiática – mais conhecida como Europa, o leve, e assim, ele ao retornar, já desembarque no Brasil best seller, pois o reconhecimento no exterior tem sido a tônica para que bons trabalhos sejam valorizados internamente.

Para além disso tudo, saio da Flip com boas impressões. O circuito paralelo trouxe diálogos de altíssimo nível. Deixa eu falar de minhas experiências. Não foram muitas, porque estive acompanhado de minhas filhas que necessitavam de cuidados e atenção, eu e minha esposa nos dividimos ao máximo para aproveitar, mas nem tudo pôde ser acompanhado. Vou começar falando das Casas que foram utilizadas por editoras, empresas ou coletivos e que tive oportunidade de presenciar. A Casa do Papel foi um espaço onde toda a família teve experiências com formas artesanais de produção de livros. Lá, nos deparamos com profissionais que acumulam muitos conhecimentos e experiências na arte do restauro. Na Casa Publishnews, dentre muitos diálogos realizados, acompanhei curadores e organizadores de feiras e festivais literários fora do eixo Rio-São Paulo. O ambiente de troca permitiu a absorção de muitas informações que podem ser utilizadas na organização de eventos plurais. Não é para rir, mas veja minha foto na imagem de 360º que a Publishnews publicou no Facebook, clique aqui. Na Casa da Porta Amarela, várias editoras independentes dividiam um espaço caótico e ao mesmo tempo aconchegante, as atividades que rolaram, não consegui acompanhar, lá, minhas filhas só me deixaram tomar uma cerveja, a Poética, que estava muito boa – se alguém souber mais sobre a cervejaria que a fabrica, me dê mais informações. E por fim, acompanhei alguns diálogos na Casa Malê que promoveu vários encontros, lançamentos de autores de seu catálogo e recebeu nossa diretora de marketing, Lú Bento, para um bate-papo sobre literatura infantil que rendeu algumas alfinetadas. Coisa que não foi vista ao longo da programação oficial da Flip, tava todo mundo parecendo meio compadre e comadre, ou deixa que eu chuto. A flip ficou preta.

Ainda teve o espaço do outro lado do canal, onde os movimentos sociais organizados sentaram para dialogar, venderam produtos artesanais e a produção de agricultores locais. Muitos artistas se apresentaram, escritores lançaram seus livros e a chama da justiça social esteve bem acesa.

Como o trabalho também deve ser permeado por momentos de descontração, entre uma poesia e outra, nas ruas tortas de Paraty, líamos Desakato Lírico, do poeta Cizinho Afreaka, publicado pela Ciclo Contínuo, ao ouvir nossas leituras, dentro de um restaurante muito bonitinho, estava ela, nossa Musa Superior Conceição Evaristo que chegou à porta e nos disse: – ‘A Flip ficou preta’! Depois fez um convite muito cativante. Chamou para bebericar da cerveja que leva seu nome. Recebi o convite como ordem. E aí está o registro: A Flip ficou preta.

a flip ficou preta

Família InaLivros, Família Era Uma Vez o Mundo, Suzana Matos e Conceição Evaristo. A Flip ficou preta.

Depois disso tudo, para não dizerem que fiquei muito saidinho durante o evento, indico alguns livros de autores que estiveram na programação oficial, que constam no catálogo da loja virtual da InaLivros e que você não pode deixar de ler: A Flip  ficou preta.

1) Insubmissas Lágrimas de Mulheres / Conceição Evaristo A flip ficou preta

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2) Um Defeito de Cor / Ana Maria Gonçalves

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3) Livro das Falas / Edimilson de Almeida Pereira

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4) O Tambor Africano e Outros Contos dos Países Africanos de Língua Portuguesa / Suzana Ventura

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1 Diva Bento é minha tia querida que não está mais nesse plano, nos deixou fisicamente há mais ou menos uns 3 anos.

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Conceição Evaristo e suas obras

                                                                                                                                                                                                                                                            Foto: Marco Antônio Fera

Escritora de talento inegável, é mestre e doutora em Literatura. Nascida em Belo Horizonte, numa conjuntura social nada favorável, migra para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida e por lá vive desde a década de 70. Tem se dedicado a dar visibilidade para a Literatura Negra através de sua “Escrevivência”. Nos últimos anos, vem acumulando prêmios como o Jabuti na categoria Contos, em 2016, foi homenageada em fevereiro de 2017 com o Prêmio ‘Faz Diferença’ do jornal globo, na categoria prosa, dentre outros. Além disso, tem gerado desconforto em espaços, que são também lugares, de privilégio, como a Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP, lá criticou a falta de escritoras negras e negros na programação principal da Festa, que rebatizou carinhosamente de “Arraiá da Branquitude”.

Começou publicando seus poemas e contos nos Cadernos Negros que podem ser considerados mãe e pai da Literatura Negra, enquanto a imprensa negra do início do século XX, será, para nós, a vovozinha querida que abriu parte do caminho. A reunião de textos nos Cadernos tiveram e têm o objetivo de dar visibilidade a escrita de autoras e autores negros, bem como, explorar suas percepções sobre o que a população negra sente na sociedade brasileira. Para além disso, a autora resolveu investir na publicação de seus próprios livros em parceria com pequenas e médias editoras que apostaram em seu talento ficcional, que a faz por a caneta, sem pena, nas feridas das injustiças, do cotidiano violento e da pobreza que acomete a maioria da população negra brasileira.

Para você ter acesso a escrita inconfundível dessa autora que nos surpreende a cada livro publicado, iremos fazer uma breve apresentação de suas obras, segue:

1) OLHOS D’ÁGUA – Conceição Evaristo e suas obras

O olho cheio de água que compõe a capa dessa obra não anuncia o soco, o pontapé e aquela cusparada na cara que está por vir. Os textos reunidos nessa obra, outrora publicados nos Cadernos Negros, machucam e maltratam. Todavia, apresentam de forma elegante e necessária, as mazelas que muitos fingem não ver, mas que estão no cotidiano da população negra. E são as situações vividas por Ana Davenga, Duzu Querença, Natalina e tantos outros que evidenciam as injustiças em seu texto. Se assustou com a apresentação? Não se intimide, esse é um daqueles livros que precisam ser lidos e entendidos. Vamos lá, coragem!

Acompanhe:

“(…) O deputado tremia, as chaves tilintavam em suas mãos. Davenga mordeu o lábio, contendo o riso. Olhou o político bem no fundo dos olhos, mandou então que tirasse a roupa e foi recolhendo tudo.

– Não, doutor, a cueca não! Sua cueca não! Sei lá se o senhor tem alguma doença ou se tá com o cu sujo!” Pág.:25

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2) INSUBMISSAS LÁGRIMAS DE MULHERES – Conceição Evaristo

e suas obras

Insubmissas Lágrimas de Mulheres nos traz contos que são fruto de uma escuta atenta e de inventivas histórias para suprir lacunas que se confundem com injustas realidades, sentimentos  e situações do território feminino. Mais uma vez a vivência e a escrita se entrelaçam para  narrar 13 situações de 13 mulheres diferentes que trazem sua humanidade a flor da pele, assim como situações de violência, dor, esperança e superação.

Leia o trecho:

“(…) Um dia, ele me convidou para a festa de seu aniversário e dizia ter convidado outros colegas de trabalho, entre os quais, duas enfermeiras do setor. Fui. Nunca poderia imaginar o que me esperava. Ele e mais cinco homens, todos desconhecidos. Não bebo. Um guaraná me foi oferecido. Aceitei. Bastou. Cinco homens deflorando a inexperiência e a solidão de meu corpo. Diziam, entre eles, que estavam me ensinando a ser mulher”. Pág. 57/58

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3) PONCIÁ VICÊNCIO – Conceição Evaristo e suas obras

Ponciá Vicêncio foi o primeiro romance publicado por Conceição Evaristo. É uma obra que nos apresenta algumas situações que a falta de informação proporcionou à população negra que vivia na zona rural, em um período posterior ao término da escravidão. O livro conta a história da família Vicêncio, tendo Ponciá sua protagonista que teve reservada em seu destino as penúrias que a acometeram, bem como seus antepassados e sucessores. A circularidade temporal é marca profunda no enredo dos desencontros, mortes e migrações expostas no livro. Foi leitura obrigatória no vestibular da UFMG de 2007.

Acompanhe um trecho:

(…) Aprendera a ler as letras numa brincadeira com o sinhô-moço. Filho de ex-escravos, crescera na fazenda levando a mesma vida dos pais. Era pajem do sinhô-moço. Tinha a obrigação de brincar com ele. Era o cavalo onde o mocinho galopava sonhando conhecer todas as terras do pai. Tinham a mesma idade. Um dia o coronelzinho exigiu que ele abrisse a boca, pois queria mijar dentro. O pajem abriu. A urina do outro caía escorrendo quente por sua goela e pelo canto de sua boca. Sinhô-moço ria, ria. Ele chorava e não sabia o que mais lhe salgava a boca, se o gosto da urina ou se o sabor de suas lágrimas. Naquela noite teve mais ódio ainda do pai. Se eram livres, por que continuavam ali?” Pág.:17

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4) HISTÓRIAS DE LEVES ENGANOS E PARECENÇAS – Conceição Evaristo e suas obras

CONCEIÇÃO EVARISTO - HISTÓRIAS DE LEVES ENGANOS E PARECENÇAS

Se você já leu alguma obra de Conceição Evaristo e espera encontrar nesse livro aquela crítica necessária às injustiças que acometem a população negra e a contundente indiferença vivenciada a cada ato de racismo, pode trocar a lente, acalmar as expectativas, porque você está prestes a embarcar numa obra que foge desse pano de fundo. E o que iremos assistir é uma autora se permitindo ao inusitado, estranho e imprevisível.

Leia:

“(…) Na hora da comunhão, o rosto de Dóris se iluminou. Uma intensa luz amarela brilhava sobre ela. E a menina se revestiu de tamanha graça, que a Senhora lá do altar sorriu. Uma paz, nunca sentida, inundou a igreja inteira. Ruídos de água desenhavam rios caudalosos e mansos a correr pelo corredor central do templo. E a menina ao invés de rezar a Ave-Maria, oração ensaiada por tanto tempo, cantou outro cumprimento. Cantou e dançou como se tocasse suavemente as águas serenas de um rio. Alguns entenderam a nova celebração que ali aconteceu. A avó de Dóris sorria feliz. Dóris da Conceição Aparecida, cantou para nossa outra Mãe, para nossa outra Senhora”.  Pág.: 24/25

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5) BECOS DA MEMÓRIA – Conceição Evaristo e suas obras

Trata-se de um romance de 170 páginas, o primeiro da autora que ficou engavetado durante 20 anos, recebendo a luz após Ponciá Vicêncio que já foi apresentado. Diz a autora que só resolveu publicá-lo após insistentes pedidos de amigas e amigos que o leram alguns anos antes. Nesse romance, Conceição transporta para a literatura a tensão do cotidiano de quem está submetido as diversas formas de violência. Apresenta a cor da pobreza no meio urbano sem a suavidade de quem nunca sentiu o que escreve. Mostra a necessidade da cabeça erguida e o compromisso com a transformação, com a educação-conhecimento que torna o indivíduo na coletividade, capaz de acreditar em si, conhecer as injustiças causadas pelas faltas de políticas públicas que equilibrem situações de desigualdades.

Vale a pena ler, saiba por que:

“(…) Nesta época, ela iniciava seus estudos de ginásio. Lera e aprendera também o que era casa-grande. Sentiu vontade de falar à professora. Queria citar como exemplo de casa-grande, o bairro nobre vizinho e como senzala, a favela onde morava. Ia abrir a boca, olhou a turma, e a professora. Procurou mais alguém que pudesse sustentar a ideia, viu a única colega negra que tinha na classe. Olhou a menina, porém ela escutava a lição tão alheia como se o tema escravidão nada tivesse a ver com ela. Sentiu certo mal-estar. Numa turma de quarenta e cinco alunos, duas alunas negras, e, mesmo assim, tão distantes uma da outra. Fechou a boca novamente, mas o pensamento continuava. Senzala-favela, senzala-favela”!

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7 Fábulas e Contos Africanos – InaLivros Listas

Acompanhe nessa lista 3 fábulas e 4 contos conhecidos em países africanos.  Todos os livros foram publicados no Brasil, os de língua portuguesa possuem algumas palavras desconhecidas para nós brasileiros, mas todos têm glossário o que facilita o entendimento e acaba sendo uma forma de ampliar o conhecimento de novas palavras. Todas as autoras e autores apontam que essas histórias fazem parte da cultura local e são transmitidas oralmente. Agora, você não tem mais motivos para desconhecê-las e pode, principalmente, ler ou contar para uma criança, ou várias.

1) AS GARRAS DO LEOPARDO

fábula africana - as garras do leopardo Autor: Chinua Achebe / Nigéria

 

Essa fábula africana mostra como era “no começo”. Nessa época os bichos vivam em aldeias rodeados de florestas. Todos eram amigos e a maioria não possuía garras afiadas e nem dentes que pudessem por medo ou mesmo machucar um ao outro. E lá, eles tinham um rei, que não era o Leão e sim o Leopardo, que os liderava de forma muito rigorosa, porém era gentil e esperto. Todos os animais o admiravam e gostavam dele, com exceção do Cachorro.

A Grande Chuva sempre foi um tormento para os bichos da floresta. Para resolver a situação, o rei convocou todos os bichos, que decidiram em comum acordo construir um abrigo comunitário. As exceções à decisão da coletividade vieram do pato e do cachorro que não tinha simpatia pelo Leopardo. Ambos moravam longe e não quiseram se envolver na construção que ficou pronta depois de algumas semanas.

O período da construção foi suficiente para que tivesse início uma tempestade que inundou a floresta e obrigou o cachorro a fugir da caverna onde vivia isolado. Ele foi direto para o abrigo comunitário construído pelos outros bichos. Chegando lá, imediatamente expulsou quem estava dentro, travando uma batalha sangrenta com o rei Leopardo que, em desvantagem, perdeu a disputa. Afinal, o Leopardo não possuía garras, muito menos dentes afiados, ao  contrário do Cachorro.

Desolado e com o sentimento de ter sido traído, já que nenhum dos animais teve coragem de se unir para enfrentar o Cachorro, como propôs o Leopardo, ele se embrenhou pela floresta e adquiriu o que era necessário para retornar, reavendo assim seu trono. Depois de toda essa situação, o Cachorro revelou sua verdadeira face que era ainda mais obscura como atesta o texto.

Gostou? Agora é preciso ler o livro para saber tintin por tintin o que de fato aconteceu.

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2) KALIMBA

fábula africanca - kalimba Autora: Maria Celestina Fernandes / Angola

 

Os tempos eram tão secos que as sementes plantadas não germinavam. A fome chegou na aldeia e se manifestava em todos. Os celeiros já estavam vazios como os estômagos e, quando tudo parecia perdido, alguém surge com uma ideia genial para resolver o problema. Depois da reunião em que todos tinham o direito de decidir em conjunto, ficou acordado que mandariam seus filhos em busca de comida. E assim tem início esse conto super instigante.

A ideia era que os mais jovens levassem consigo utensílios como facão, machado e enxada para trocar por alimentos. Logo partiram com o objetivo de salvar o povo da aldeia, que não aguentava mais de fome. No caminho, depois de muito andar, se deparam com um velho que tinha uma ave na mão. Ele os perguntou o que faziam andando naqueles caminhos. Explicaram a situação e o velhote sugeriu trocar o pássaro que tinha em mãos pelos utensílios que levavam.

Dois dos três camaradas riram e fizeram chacota do velho que fazia uma proposta entendida como insana. No entanto, Kababo, o moço que levava o machado, deixou que os camaradas avançassem um pouco na caminhada e aceitou a troca. A partir desse feito, tem início uma grande confusão. Pois, a Kalimba, ave de asas e dorso acinzentados, assume o papel principal da trama.

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3) O JOVEM CAÇADOR E A VELHA DENTUÇA

fábula africana - jovem.cacadorAutor: Lucílio Manjate / Moçambique

 

Esse conto apresenta a história da Velha Dentuça que morava na floresta com moças formosas de pele escura que a tratavam como mãe. Ela possuía dois dentes a frente que lembravam um coelho, cada um media cerca de um metro de altura. Já o Jovem Caçador era robusto, bonito e descendia de uma família muito humilde.

Decidiu, o Jovem Caçador, que precisava se casar e na floresta iria conseguir sua esposa. Comunicou aos pais para obter a benção e seguir seu caminho, mesmo ciente de que todos que se arriscaram na floresta jamais retornaram.

A mãe tentou convencê-lo a desistir da ideia, mas a determinação do Jovem era irreversível. Então, ela o aconselhou a levar seus cachorros e contou um pouco do que sabia sobre a floresta. Explicou-lhe que a floresta já havia sido uma bonita e próspera aldeia, até que os homens e as mulheres, responsáveis por podar a copa das árvores, morreram de velhice e o lugar foi se tornando obscuro e sem luz. A Velha Dentuça, que já habitava a região, matou todos os meninos que restaram da aldeia. No entanto, as meninas receberam todos os seus cuidados e se tornaram mulheres bonitas.

O Jovem, convicto de sua decisão, partiu em direção à floresta onde foi muito bem recebido.  A Velha logo pôs em prática suas táticas que haviam dado certo com todos os moços que tentaram buscar uma esposa na floresta. E os cachorros do Jovem tiveram papel fundamental diante das estratégias da Velha, que envolveram até peido fedorento para frear  empreitada do Jovem Caçador.

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4) BOJABI A ÁRVORE MÁGICA

fábula africana - bojabi  árvore mágicaAutora: Dianne Hofmeyr / África do Sul

Nessa fábula africana, as planícies da região onde hoje é  a África do Sul sofriam com a seca e a escassez de alimentos. Todas as plantas secavam. O Elefante, a Girafa, a Zebra, o Macaco e a Tartaruga arrastavam-se pelas terras áridas atrás de migalhas que pudessem atenuar a fome.

De longe, os bichos avistaram uma árvore maravilhosa coberta de frutos vermelhos e maduros.  Mas quando chegaram bem pertinho, se depararam com uma imensa serpente Píton enrolada no caule da árvore. Pediram à serpente que saísse dali para que pudessem comer dos frutos. E a serpente fez uma exigência, queria que falassem o nome da árvore para que os deixassem se alimentar.

Como os animais não sabiam o nome de tal árvore, decidiram procurar o Leão que tudo sabia e poderia lhes auxiliar. Foram então, um de cada vez, a sua procura e o encontraram distante e cada vez menos paciente. De toda forma, dizia o nome da tal árvore e ao retornar, os animais estavam tão preocupados com suas habilidades que no momento certo, esqueciam a pronuncia do nome da árvore que o Leão havia ensinado.

Até que deixam a Tartaruga, tão lenta, porém esperta e astuta, ir ao encontro do majestoso.

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5) A VASSOURA DO AR ENCANTADO

Fábula Africana - Vassoura do Ar EncantadoAutor: Zetho Cunha Gonçalves / Angola

 No norte de Angola, uma pequena aldeia era rodeada de nevoeiro, cafezais e muitos rios. Os rios cantavam e contavam histórias sobre segredos do princípio do mundo. Lá viviam duas irmãs muito velhinhas, que as pessoas das outras aldeias diziam se tratar de bruxas feiticeiras. Esse é o enredo desse conto.

As pessoas da aldeia onde viviam não se preocupavam muito com elas, pois pareciam pessoas normais, exceto quando olhavam as coisas e as pessoas, aí se diferenciavam, pareciam enxergar coisas que os outros não viam. E de fato, enxergavam. Quando alguém adoecia na aldeia, eram elas que cuidavam do enfermo com seus saquinhos e olhar de feitiço. Esses dons e poderes especiais eram suficientes para que todas as gentes da aldeia as respeitassem.

Com elas lá, a aldeia era conhecida pelas pessoas de fora como a Aldeia das Bruxas. E era o lugar mais bonito e perfeito de se viver. Depois do jantar era o momento em que todos se reuniam para ouvir as histórias que os mais velhos contavam. Ao acordar descobria-se que cada um havia acompanhado uma história diferente. E esse era mais um dos grandes mistérios da Aldeia das Bruxas.

A vizinhança tinha muita inveja da Aldeia das Bruxas e, por conta desse sentimento, decidiram eliminá-las. Mas para surpresa daqueles que habitavam fora da aldeia, o povo que vivia na Aldeia das Bruxas, decidiu defendê-las e nada de mal lhes aconteceu. Daí, estas decidiram retribuir os vizinho da aldeia, ensinando algumas crianças os segredos que conheciam. Vale a pena ler para conhecer o final…

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6) O REI MOCHO

rei.mocho Autor: Ungulani Ba Ka Khosa / Moçambique

 Nesse conto acontece um diálogo entre pai e filho sobre tempo antigos, onde o mundo ainda era pequeno e os gestos se sobrepunham a fala. Animais e homens se entendiam perfeitamente. Naqueles tempos a mentira ainda não havia sido inventada. E ela surge, justamente da confusão criada entre o homem e o Mocho.

As aves decidiram escolher um chefe, alguém para seguir, alguém que pudesse dar orientações. Escolheram, então, o Mocho e comunicaram a todos os bichos, inclusive aos homens. E a escolha foi feita por conta dos chifres que o Mocho possuía.

Por verem as saliências na cabeça do Mocho, acreditavam se tratar de fato de chifres. E o Mocho por sua vez, quando indagado, não desdisse a falta de chifres, ao contrário, solicitou as aves que não encostassem em suas cabeças de modo a não atrapalhar o comando. Ainda assim, tudo era harmônico e funcionava perfeitamente bem entre todas as espécies que habitavam a Terra.

O homem que já teve a possibilidade de sentir os chifres em seus dedos, desconfiou da veracidade do Mocho possuir tal apetrecho em sua cabeça. Decidiu, então, passar a mão na cabeça do Mocho, sentindo um tufo macio de cabelo, ao invés de saliências duras como chifres. Imediatamente, anunciou a todos que o Mocho era mentiroso e que havia se aproveitado da ingenuidade das aves para ser Rei. E a confusão que o homem gerou, você só vai saber lendo o livro!

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7) AS ARMADILHAS DA FLORESTA

armadilhaAutor: Hélder Faife / Moçambique

 

Os animais da floresta deixam de ser acordados pelos passarinhos que eram o despertador local. A partir daí instala-se uma grandiosa confusão. A paralisação dos passarinhos faz com que os bichos da noite não se recolham no horário apropriado e os diurno não levantem no princípio do dia.

Com os dias, além da confusão, a tristeza vai começando a se instalar na floresta. Percebendo a desarmonia, o rei Leão convoca os animais em assembleia para entender o que estava causando toda aquela situação. Os animais apontam a paralisação dos pássaros como a grande responsável. O Leão pergunta aos pássaros com toda sua autoridade, o que havia acontecido e eles falam que não cantam sem felicidade, sem alegria e que sua tristeza era causada pelas atitudes do homem que cortavam as árvores, sua morada. Outros bichos começaram a reclamar também, uns da poluição do ar, dos rios, outros do assassinato de suas espécies para venda de algo valioso como o chifre do Rinoceronte, o marfim do Elefante, dentre outros.

Ao entender a situação dos bichos, o Leão decide agir. Foi atrás do homem para conversar. Cheio de medo ao se deparar com o Leão, o homem aceitou a proposta que o rei da selva fez. Dia sim, dia não os animais presos na armadilha que o Homem punha na floresta seria do Leão. O Leão, em seu dia,  atraiu a mulher do homem com seu filho para uma das armadilhas. Para saber como o homem saiu dessa e como os animais da floresta voltaram a viver em harmonia, só lendo o final dessa fábula africana no livro.

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Autora do Mês – Maio – Cristiane Sobral

A InaLivros começa esse mês uma série de conversas sobre obras e autores. Vamos conhecer melhor o processo de criação de determinadas obras. A escolhida do  mês de maio foi a autora Cristiane Sobral, autora do livro Espelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção, obra escolhida para o clube de leitura Leia Mulheres Negras, realizado pela página do facebook Leia Mulheres Negras com o apoio da InaLivros.

Lu Bento: Cristiane, quando nós da InaLivros pensamos este espaço, o Quilombo Literário, a motivação inicial foi de busca por uma literatura que falasse das questões vividas pelas população negra, uma literatura que nos colocasse em posição de protagonismo e que se apresentasse ao mundo a partir de um ponto de vista afrocentrado, ou de um ponto de vista de um pessoa negra. Pra gente, isso se reflete em uma busca por uma literatura negra. Então eu vou começar com a pergunta que a gente sempre faz para os nossos convidados: Existe um literatura negra? O que é literatura negra pra você? IMG_8032

Cristiane Sobral: Não afirmo apenas uma literatura negra, em minha opinião a literatura negra tem diferentes contornos a partir de cada escritor, embora os elementos, as ferramentas de escritas sejam coincidentes, existe literatura negra, sim, há tempos. Seu marco oficial no Brasil aponta para o século XIX. Vários estudiosos da literatura, como o Prof. Dr. Eduardo de Assis Duarte, da UFMG tem traçado essa linha do tempo e apresentado grandes expoentes desse nicho de produção.

O que é literatura negra na minha concepção?

Uma literatura interessada na subjetividade negra, nas suas memórias, histórias, tradições, engajada na contação de histórias da negritude e sua ancestralidade. Nessa literatura, os escritores negros falam de si, desafiando as visões estereotipadas apresentadas pela literatura “universal”, no que se refere à representação dos personagens negros.
Na literatura negra, que pode ser encontrada com outros nomes como afro-brasileira, afro-descendente, negro-brasileira, só para citar alguns, existimos além do escravagismo e do seu legado no Brasil: Somos seres humanos, diversos, Não existe um protocolo para ser africano ou afro-brasileiro, nossa identidade é múltipla, em construção contínua, amamos, lutamos, pensamos, além da diáspora negra, com a nossa mitologia, ciência, religião, temos o direito de contar as nossas versões diante da “história única”.
Não basta ser negro para produzir literatura negra, há um compromisso estético e político nessa escrita, existem escolhas conscientes do autor, no sentido da intencionalidade da obra.

Lu Bento: Você já tem uma trajetória de escritora com textos seus publicados no Cadernos Negros, livros de poemas, e o “Espelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção” foi seu primeiro livro de contos individual publicado. “Pixaim”, o conto que abre este livro, já havia sido publicado nos Cadernos Negros. Quais outros contos já haviam sido publicados? Você já tinha o esboço dessa estruturação do livro, ou você foi percebendo as ligações entre os textos ao longo do processo de criação?

Espelhos
Cristiane: Os outros contos que já tinham sido publicados são: “Garoto de plástico”, “Cauterização”, “A Discórdia do Meio”, “O Buraco Negro”, “Bife com Batata Frita”, e “O Último Ensaio Antes da Estreia”. A estruturação do livro foi totalmente intencional e programada.
Quando resolvi publicar um livro de contos, comecei a tramar um tecido que fosse combinado, pensando nos diálogos possíveis entre os textos e temáticas.

Lu Bento:  O livro “Espelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção” nos provoca a pensar sobre identidade, sobre visibilidade da população negra e principalmente sobre relações. É um livro que trabalha o tempo todo com as noções de ver e ver visto, em diferentes níveis. A própria ideia de espelhos que perpassa toda a obra nos guiando para uma leitura reflexiva, partindo de uma visão-reflexão sobre à aparência e de questões relacionadas à estéticas, passando por uma visão-reflexão de temas relacionados a afetos, até uma visão-reflexão sobre questões psicológicas e existenciais. O que te motivou a escrever sobre esses temas?

Cristiane: A subjetividade negra, o corpo negro, são temas que têm sido pouco abordados e de forma estereotipada em nossa literatura, as nossas obras têm raros exemplos de vivências das personagens negras fora do contexto da escravatura, humanizadas, com experiências e voz. Quero saber mais sobre a negritude além do contexto do escravagismo, quem são essas pessoas, onde estão, os seus sonhos e desafios… Também as lacunas na nossa ancestralidade, os antepassados que não conhecemos, nossas raízes apagadas, a diáspora é um grande mar com muito conteúdo, muita riqueza submersa.
Isso me motiva e fomenta a minha escrita.

Lu Bento: Os nomes dos seus personagens se repetem em alguns contos e são muito contextualizados. Os Augustos negros, as meninas Ioli, as mulheres Socorros que realmente precisam de ajuda, a Celeste, o Maurício, a Olga… São nomes especiais pra você de alguma forma? Essa é uma preocupação sua ao escrever, nomear as personagens de modo que demonstre através do nome um pouco da personalidade delas?

Cristiane: Sim, não escolho nomes ao acaso, na verdade os nomes são geradores e intensificam a construção das personagens, levo muito tempo para escolher os nomes, não concluo um texto enquanto não acho um nome adequado. Sim, são nomes especiais, personalidades que dão vida à ficção.

Lu Bento: A primeira parte, “Espelhos”, fala muito sobre negritude e a falta de reconhecimento dessa negritude. Em “Pixaim” a menina tem sua negritude camuflada pelo alisamento dos cabelos, mesmo contra seu desejo. Em “Garoto de Plástico” e “Cauterização”, as personagens estão presas a um modelo embranquecido de existência até conseguirem olhar para si mesmos e perceberem sua negritude. Em “Maria Clara” a menina tem a sua negritude negada para ser aceita como filha de um casal branco. Em “A Discórdia do Meio” há uma relação tensionada entre irmão pelo fato de uma ser negra e o outro ser mestiço e ambos terem que lidar com essas identidades raciais. Enfim, gostaria muito que você falasse brevemente sobre os textos desta parte do livro.

Cristiane: Nessa parte do livro, as identidades estão em confronto com a realidade cotidiana do enfrentamento do racismo em nosso país, cada um com suas escolhas, perspectivas, mas sempre instigados ao conflito, com a possibilidade de ruptura. Quanto mais a consciência racial e o autoconhecimento, maior o empoderamento das personagens.

Os personagens têm muitos desafios alguns tomaram um caminho diferente conforme se deu o processo de escrita, percebi que isso faz sentido, considerando o meu interesse em construir histórias além dos maniqueísmos de bem e mal. É preciso ouvir a voz dos personagens no processo de composição literária e exercitar o desapego. Em certas passagens, a realidade é hiper realista, surrealista, beira o absurdo, em muitos momentos senti a necessidade de romper algumas convenções que extrapolam o realismo, para que os confrontos pudessem existir e provocar o leitor.

Lu Bento: A segunda parte, “Miradouros”, creio que os encontros e desencontros perpassam todos os textos. Eles nos convidam a refletir sobre desejos e sobre transformações em modos de ver a vida e as relações interpessoais. Os protagonistas passam por situações que lhes possibilitam uma mudança de atitude diante de uma situação. Qual era a sua expectativa com os textos desta parte?

Cristiane: Miradouro é um local de onde se pode enxergar, mirar, um horizonte largo. Nessa parte do livro, os personagens vão se resolvendo no percurso. São convidados a nascer. Nos três últimos contos, há certa névoa no horizonte, é difícil para cada um dos protagonistas, que parecem perdidos, a visualização de saídas, mas eles mergulham em si mesmos. Quando parecem derrotados, encontram o seu próprio caminho. Gosto muito dos mistérios que envolvem as histórias das pessoas, seus paradoxos, as especificidades que compõe cada indivíduo, sua sombra e sua luz.

Lu Bento: A terceira parte, “Dialéticas da Percepção” tem seu foco na morte e na solidão. Todos os contos tangenciam esse tema de uma maneira muito intensa, e trabalham de alguma forma o olhar para si mesmo. Eu destaco especificamente no último texto, a fala do personagem Pedro:”Se você se enxerga diante de um espelho negro, aprenderá a conviver com as suas sombras, com as suas luzes, alterando a sua percepção.”. O que você tem a falar sobre essa terceira parte do livro?

Cristiane: Esse último portal é um caminho de dor, sentimento inevitável diante da invisibilidade do negro nesse país, da exclusão social, da solidão da mulher negra, da exploração do corpo do homem negro, da sua sexualidade, do capitalismo e dos seus mecanismos de padronização dos sujeitos. Mas a morte e a dor também são reveladas além do pensamento judaico cristão, a morte dos sujeitos aí, também tem seu desabafo, nem sempre como uma rendição diante das dificuldades. Alguns contos permitem a reconstrução, a resiliência diante da dor, mas outros não. A tridimensionalidade humana é destacada, sem maniqueísmos de mal e bem.

Lu Bento:  O livro está dividido em 3 partes, cada uma com 7 contos. Acredito que essa estruturação não foi por acaso, e gostaria que você falasse um pouco sobre isso. O número 7 me remeteu imediatamente a ideia de 7 anos de azar, relacionadas a quebra do espelho. Em cada uma das partes há um texto que provoca um quebra em relação aos demais. Na primeira parte, creio que o texto “O buraco negro” traz essa quebra ao falar de uma depressão e sua superação. Na segunda, “Homem bom entregador de pizza” talvez exerça essa função e na terceira, “Espelho negro” fala de uma mudança da perspectiva de reflexão, da aparência/estética para os reflexos de espelhos negros, que refletem memórias e ancestralidade. Essa é uma visão pessoal minha. Você pensou em alguma dessas coisas eu escolher essa estrutura para o livro?
Tudo nesse livro foi milimetricamente pensado. 21 contos, que são reduzidos na numerologia ao número 3, número chave no processo da criatividade e da comunicação. Novamente temos o 3, pois o livro tem três capítulos, três portais que vão além da dualidade do mal e do bem, eu queria muito propor isso.

Cristiane: Quanto ao número 7, ele fecha e abre muitos ciclos, sete dias da semana, sete cores do arco-íris, sete orixás na umbanda, cada período lunar tem sete dias, enfim. Eu quis trabalhar com ciclos, sete contos, em três portais, totalizando 21 contos, o três novamente, símbolo mágico da comunicação, corpo, mente e espírito. Três é um número ótimo pra quem quer trocar ideias e escrevi o livro considerando essas perspectivas.

Outro aspecto. Os sete contos foram agrupados intencionalmente, o primeiro portal, Espelhos, aborda os desafios da identidade, o segundo, Miradouros, revela identidades em confronto com a perspectiva de mudança, seus desafios e no terceiro portal, a morte é um caminho para a vida, para a transformação. A morte também revela a necessidade do momento limite, no qual precisamos mudar o estado das coisas. Em todos os contos aparece a palavra espelho, isso foi proposital.

Lu Bento: Meu conto favorito no livro é Olga. A construção complexa da personagem e a sua reviravolta me chamaram muita atenção. Você tem um conto favorito? Ou um conto que foi mais tranquilo de escrever, ou que você gostaria de destacar de alguma forma?

Cristiane: Não tenho um conto favorito, é difícil escolher. Cada um tem um aspecto que me fascina, pelo bem ou pelo mal, além disso, me provocam, são pessoas que eu gostaria muito de encontrar e conhecer, isso me desafia a escrever, a contação de histórias, a invenção. Olga por exemplo, que loucura, eu não sabia onde ela poderia chegar, tão inesperada, amo a sua impulsividade e o desapego diante das situações. Alguns personagens me incomodam também, outros provocam profunda reflexão. Depois que escrevo procuro me distanciar e ler novamente, como leitora. É sempre um aprendizado.

Lu Bento: Vamos a mais um pergunta padrão da InaLivros: Nós queremos muito estimular novos escritores. Desde quando a gente começou a conversar com autores, quase sempre um outro escritor teve um papel fundamental no incentivo para a publicação. Quem te incentivou, te encorajou a começar a publicar? Ou a continuar publicando, ou a publicar livros autorais e não só permanecer publicando em coletâneas?

Cristiane: Minha mãe Marina, foi uma grande incentivadora, professora de formação e dona de casa por decisão. Era muito exigente com as tarefas escolares e eu, sempre interessada pelas letras, a ponto de deixar as bonecas de lado, fui instigada por ela a respeitar a língua portuguesa e a me colocar diante dela como eterna aprendiz, sempre querendo mais, lendo mais, indo mais fundo. Meu pai, ávido leitor e cinéfilo, despertou o amor pelas histórias nos filmes, de certa forma a minha preocupação com a construção de imagens vem daí, porque assisti muitos filmes e ouvi muita música boa em casa. A música me deu o sentido do ritmo e da sua importância na construção tanto da poesia, quanto da prosa. Mas eu tinha um incômodo no que se refere a representação das personagens negras, o Quilombhoje foi muito importante pois conheci autores produzindo em outra dimensão, com outro ponto de vista no que se refere à construção da subjetividade negra na literatura. Com o grupo comecei a publicar, em 2002, incentivada por uma amiga angolana, Alexandra Aparício, historiadora, Diretora da Biblioteca Nacional na altura, intelectual e mulher feminista aguerrida, com quem compartilhava meus escritos, guardados há anos, a sete chaves. Quando comecei a publicar tive muito retorno do público leitor, isso me instigou muito a continuar escrevendo, lendo, refazendo a minha escrita.

Lu Bento:  Seus textos falam muito sobre a solidão da mulher negra. São muitas mulheres solitárias ou com relacionamentos problemáticos. Qual é a importância de ficcionalizar esse tema que é tão frequente na realidade das mulheres negras?

Cristiane: Sim, precisamos falar sobre as nossas dores, amores, também sobre as nossas vitórias. Vivemos um longo período de silenciamento, não havia tempo para falar, os corpos das mulheres negras estiveram sempre a serviço de outrem. E a dor é apenas um dos aspectos, quero ir mais fundo, no que se refere à subjetividade da mulher negra, precisamos aprender a gostar mais de nós mesmas, conversar, ficcionalizar, inventar e reinventar nossas vidas, a literatura é um portal. Existem muitos cenários de invenção para as mulheres negras, isso me interessa. Continuo atenta.

Lu Bento:Você já está preparando um novo livro? Você já publicou poesias e contos. Pensa em escrever um romance?

Cristiane: Estou preparando um livro de poesia, está quase pronto, pra esse ano ainda. Também estou finalizando a 3ª edição do “Não vou mais lavar os pratos”, revisada e com poesias novas. Sairá em 2016 também, junho ou julho. O livro de poesia “Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz, está com a 1ª edição no fim, demanda nova edição com urgência. Tenho duas peças de teatro prontas, não sei se tenho pernas pra publicar esse ano, mas quero negociar com outras editoras, porque ainda cuido de toda essa demanda de publicação na minha editora atual e quero ter mais tempo pra me dedicar à escrita. Também tenho dois infantis em fase de finalização. Pretendo lançar um romance há tempos. Para o romance, quero dedicar mais tempo, não tenho previsões, quero destruir ainda muito papel anteponcia_vicêncios de chegar ao ponto da publicação.

Lu Bento: Pra fechar, que livro você acha que todo mundo deveria ler, e porque?
Cristiane Sobral: Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo. Leiam e descubram sua potência. Contundente, avassalador, toca no fundo da alma, onde devem adentrar as grandes obras.

Lu Bento: Muito obrigada Cristiane!

 


Espelhos, MIradouros e Dialéticas da PercepçãoEspelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção

Cristiane Sobral

Ed. Dulcina

2011

 Compre aqui: InaLivros

 

 


Cristiane Sobral é escritora, atriz e pesquisadora, já publicou os livros Não vou mais lavar os pratos (poemas, 2011), Só por hoje vou deixar meu cabelo em paz (poemas, 2014), Espelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção (contos, 2011) e participou de diversas antologias. Para saber mais sobre a autora e suas obras, acesse o blog: http://cristianesobral.blogspot.com.br

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Com a palavra: Carlos Moore

Recebemos nesse fim de semana um texto do Dr. Carlos Moore denunciando a forma abusiva e distorcida pela qual o Deputado Federal Jair Bolsonaro utilizou para defender seus próprios interesses. Com a palavra: Carlos Moore.
“Aos meus amigos/as:
Acabo de ser alertado por um amigo – um grande intelectual afro-brasileiro que eu respeito e estimo muito – que nesta sexta-feira dia 12 de fevereiro de 2016, o deputado federal por Rio de Janeiro, Jair Messias Bolsonaro, na sua página Facebook me atribuiu de maneiCarlos Moorera totalmente abusiva, declarações que nunca pronunciei. Com efeito, esse deputado federal, cujas ideias políticas não compartilho de maneira alguma, pois elas são perfeitamente retrógradas e reacionárias, utilizou de maneira abusiva uma entrevista que eu outorguei, em outubro de 2014, ao meio de comunicação CORREIO NAGÔ. Nessa entrevista, que o senhor Bolsonaro distorceu, eu denunciei  a agressão que tinha sofrido nesse próprio mês, no auditório 91 do Campus Maracanã da UERJ, quando proferia uma palestra sobre o Marxismo e a Questão Racial. Naquela ocasião, eu me vi interrompido e insultado pelo professor Mauro IACI, alto dirigente do PCB – um dos partidos comunistas do Brasil – cujos seguidores armaram tal confusão, com insultos e ameaças de violência física, que os organizadores do evento se viram obrigados a encerrá-lo. Na minha entrevista ao CORREIO NAGÔ, eu explicava o incidente que tinha sucedido na UERJ, e dado a minha interpretação sobre as realidades históricas subjacentes que explicavam tais procedimentos sectários e violentos – a saber, uma visão dogmática, totalitária e repressiva como aquela que imbuia todos os processos fascistas e comunistas; visão que, naquela noite, tinha se manifestado através daquele dirigente comunista (PCB), o professor Mauro Iaci, e dos seus seguidores. Ora, se apropriando daquela entrevista, que de nenhuma maneira se prestava a confusão, pois eu dizia exatamente e claramente o que pensava, eu JAMAIS mencionei o Partido dos Trabalhadores (PT). Mas, o senhor Bolsonaro, de maneira enganadora, colocou na sua página de Facebook e ENTRE ASPAS as seguintes palavras que eu NUNCA pronunciei na minha entrevista, ou em  palestra alguma, mas que ele  me atribuiu falsamente:
CARLOS MOORE: “O BRASIL NÃO PODE CEDER AO MARXISMO; AS MINORIAS SÃO USADAS NO BRASIL PARA O PT CHEGAR AO PODER ABSOLUTO …” (VER: https://www.facebook.com/jairmessias.bolsonaro/videos/588770297938627/?__mref=message_bubble )
Tendo em conta que MILHARES de pessoas já receberam e compartilharam essa DESINFORMAÇÃO em relação ao Partido dos Trabalhadores (PT), peço aos meus amigos que disseminem este DESMENTIDO pelo qual eu faço constar o caráter MANIPULADOR dessa falsa informação difundida pelo deputado federal senhor Bolsonaro em relação ao PT. Repito: se trata de uma atribuição DESINFORMADORA e absolutamente MENTIROSA. Eu, em nenhum momento tenho me imiscuído na política interna deste país (Brasil). Por isso, eu rechaço com indignação qualquer tentativa de me constranger a fazê-lo, especialmente se valendo de métodos dignos dos processos fascistas que a humanidade bem conhece.
Reafirmo aqui a minha total independência no que diz respeito à chamada “esquerda” como em relação à autoproclamada “direita”. Não permitirei NUNCA ser manipulado e usado como uma marionete por nenhum desses dois polos, nem por NINGUÉM”!
Carlos MOORE

 

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FIM DE ANO LITERÁRIO

ANO LITERARIO

Chegamos ao fim de nosso primeiro ano com a certeza de estar trilhando um bom caminho. O retorno positivo que nosso público tem sinalizado, nos dá esse indicativo. Muitas parcerias foram estrategicamente estabelecidas e potencializadas. Todos os nossos passos foram pensados com o objetivo de melhor atender e beneficiar nosso público.

Ao longo do ano, fizemos muitas escolhas, algumas recusas necessárias e aprendemos muito. Acumulamos experiências agradáveis, que colocaram em nossos caminhos pessoas iluminadas e com brilho no olhar.

Ações foram desenvolvidas visando o incentivo da formação do público leitor. E os títulos por nós selecionados para satisfazer o desejo voraz de leitura, trazem conteúdos convidativos a reflexão e que possibilitam nos tornar pessoas melhores na vida em sociedade onde valores necessários à harmonia estão cada vez mais deturpados e enfraquecidos.

Para 2016, muitas novidades já estão planejadas, muitas mesmo! E outras esperando a virada para serem colocadas em prática. Nos aguardem!

 

Desejamos paz, saúde e energias positivas a todas e todos.

inalivros

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FELIZ KWANZAA

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No último sábado, a comunidade negra na diáspora iniciou as festividades do Kwanzaa. Palavra que tem sua origem na língua Zwahili e significa “primeiros frutos”,  sua celebração ocorre de 26 de dezembro a 1º de janeiro.

Esse ritual foi criado em 1966 pelo ativista, afro-americano e Professor Universitário Ron Karenga, segundo ele, o propósito do Kwanzaa é que a comunidade negra na diáspora retome seus vínculos com sua herança africana e os fortaleça com sua família e a comunidade.

Cada dia do Kwanzaa é destinado a um dos sete princípios norteadores: unidade (Umoja), autodeterminação (Kujichagulia), responsabilidade e trabalho coletivo (Ujima), cooperação econômica (Ujamaa), propósito (Nia), criatividade (Kuumba) e fé (Imani). Para saber mais clique aqui.

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InaLivros no Odarah Produção Cultural Afirmativa

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Através de uma parceria que vem rendendo frutos, o Odarah Produção Cultural Afirmativa levará à Febarj, no próximo dia 05 de dezembro, às 16 horas, Manto Costa e Conceição Evaristo, autores que se destacaram em 2015 com suas mais recentes produções. Circo de Pulgas que ganhou o edital da Fundação Biblioteca Nacional e Olhos d’Água que foi contemplado em terceiro lugar com o prêmio Jabuti na categoria Contos e Crônicas. Irão expor suas ideias acerca dos desafios e conquistas dos autores negros brasileiros.

A InaLivros estará presente, será uma ótima oportunidade para passar uma tarde agradável e garantir seu exemplar autografado. Até breve.

Inscrições para a roda de conversa através do email odarahbazarcultural@gmail.com

Informações no evento: https://www.facebook.com/events/481686758690866/

Avenida Mem de Sá, 37, Lapa, RJ – Febarj, Rio de Janeiro, Brazil
Próximo aos Arcos.

olhosdaguacirco.de.pulgas

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Dona Ina, me indica um livro!

Ina

Ina livros descobrindo áfrica

Assim como os africanos tradicionais, entendemos que o nome precisa ter um significado na vida. Não é colocá-lo somente por ser bonito ou pela sonoridade, mas tem que trazer um motivo para encarar a vida e se relacionar com os outros.

Por isso a InaLivros recebe a palavra Ina da língua Iorubá que significa fogo. Fogo é luz. Dessa forma, InaLivros é a Luz que ilumina o conhecimento.

Digo isso, por achar interessante as colegas expositoras mais experimentadas nessa arte receberem o apelido carinhoso com o qual batizaram suas marcas. E depois de algum tempo incorporar a marca ao nome.

Ainda estamos engatinhando. Começamos essa caminhada ontem. Mas ainda assim é gratificante participar de alguns eventos e já ver as pessoas chamando minha sócia de Ina. Tudo a ver. Minha esposa e sócia carrega luz em seu nome assim como minha avó, mãe e filhas.

leo bento

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Bem-vindos!

Olá pessoal!!

A InaLivros chegou!!! Finalmente está se tornando realidade o sonho de criar uma livraria itinerante especializada na disseminação de conteúdo voltado para ciências humanas, sociais e relações raciais.  Com o início do trabalho, tivemos uma grande surpresa: a mercado de livros infantis carecia de livros com valores humanos e que promovessem a autoestima de crianças e adolescentes negros.

Nosso trabalho é, principalmente, neste sentido: fornecer subsídios para a promoção da cultura negra nos diversos espaços sociais.  Através de um garimpo bibliográfico, buscamos os melhores títulos do mercado para oferecer ao nosso público conteúdo de qualidade.

Para nós, representatividade importa! E muito! Por isso, nosso catálogo é recheado de livros de autores negros e de temática afro. Adultos e crianças irão se sentir representados pelas obras que oferecemos, nos seus diferentes estilos.

Ubuntu

“Sou o que sou pelo que nós somos”

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