Conceição Evaristo e suas obras

                                                                                                                                                                                                                                                            Foto: Marco Antônio Fera

Escritora de talento inegável, é mestre e doutora em Literatura. Nascida em Belo Horizonte, numa conjuntura social nada favorável, migra para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida e por lá vive desde a década de 70. Tem se dedicado a dar visibilidade para a Literatura Negra através de sua “Escrevivência”. Nos últimos anos, vem acumulando prêmios como o Jabuti na categoria Contos, em 2016, foi homenageada em fevereiro de 2017 com o Prêmio ‘Faz Diferença’ do jornal globo, na categoria prosa, dentre outros. Além disso, tem gerado desconforto em espaços, que são também lugares, de privilégio, como a Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP, lá criticou a falta de escritoras negras e negros na programação principal da Festa, que rebatizou carinhosamente de “Arraiá da Branquitude”.

Começou publicando seus poemas e contos nos Cadernos Negros que podem ser considerados mãe e pai da Literatura Negra, enquanto a imprensa negra do início do século XX, será, para nós, a vovozinha querida que abriu parte do caminho. A reunião de textos nos Cadernos tiveram e têm o objetivo de dar visibilidade a escrita de autoras e autores negros, bem como, explorar suas percepções sobre o que a população negra sente na sociedade brasileira. Para além disso, a autora resolveu investir na publicação de seus próprios livros em parceria com pequenas e médias editoras que apostaram em seu talento ficcional, que a faz por a caneta, sem pena, nas feridas das injustiças, do cotidiano violento e da pobreza que acomete a maioria da população negra brasileira.

Para você ter acesso a escrita inconfundível dessa autora que nos surpreende a cada livro publicado, iremos fazer uma breve apresentação de suas obras, segue:

1) OLHOS D’ÁGUA – Conceição Evaristo e suas obras

O olho cheio de água que compõe a capa dessa obra não anuncia o soco, o pontapé e aquela cusparada na cara que está por vir. Os textos reunidos nessa obra, outrora publicados nos Cadernos Negros, machucam e maltratam. Todavia, apresentam de forma elegante e necessária, as mazelas que muitos fingem não ver, mas que estão no cotidiano da população negra. E são as situações vividas por Ana Davenga, Duzu Querença, Natalina e tantos outros que evidenciam as injustiças em seu texto. Se assustou com a apresentação? Não se intimide, esse é um daqueles livros que precisam ser lidos e entendidos. Vamos lá, coragem!

Acompanhe:

“(…) O deputado tremia, as chaves tilintavam em suas mãos. Davenga mordeu o lábio, contendo o riso. Olhou o político bem no fundo dos olhos, mandou então que tirasse a roupa e foi recolhendo tudo.

– Não, doutor, a cueca não! Sua cueca não! Sei lá se o senhor tem alguma doença ou se tá com o cu sujo!” Pág.:25

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2) INSUBMISSAS LÁGRIMAS DE MULHERES – Conceição Evaristo

e suas obras

Insubmissas Lágrimas de Mulheres nos traz contos que são fruto de uma escuta atenta e de inventivas histórias para suprir lacunas que se confundem com injustas realidades, sentimentos  e situações do território feminino. Mais uma vez a vivência e a escrita se entrelaçam para  narrar 13 situações de 13 mulheres diferentes que trazem sua humanidade a flor da pele, assim como situações de violência, dor, esperança e superação.

Leia o trecho:

“(…) Um dia, ele me convidou para a festa de seu aniversário e dizia ter convidado outros colegas de trabalho, entre os quais, duas enfermeiras do setor. Fui. Nunca poderia imaginar o que me esperava. Ele e mais cinco homens, todos desconhecidos. Não bebo. Um guaraná me foi oferecido. Aceitei. Bastou. Cinco homens deflorando a inexperiência e a solidão de meu corpo. Diziam, entre eles, que estavam me ensinando a ser mulher”. Pág. 57/58

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3) PONCIÁ VICÊNCIO – Conceição Evaristo e suas obras

Ponciá Vicêncio foi o primeiro romance publicado por Conceição Evaristo. É uma obra que nos apresenta algumas situações que a falta de informação proporcionou à população negra que vivia na zona rural, em um período posterior ao término da escravidão. O livro conta a história da família Vicêncio, tendo Ponciá sua protagonista que teve reservada em seu destino as penúrias que a acometeram, bem como seus antepassados e sucessores. A circularidade temporal é marca profunda no enredo dos desencontros, mortes e migrações expostas no livro. Foi leitura obrigatória no vestibular da UFMG de 2007.

Acompanhe um trecho:

(…) Aprendera a ler as letras numa brincadeira com o sinhô-moço. Filho de ex-escravos, crescera na fazenda levando a mesma vida dos pais. Era pajem do sinhô-moço. Tinha a obrigação de brincar com ele. Era o cavalo onde o mocinho galopava sonhando conhecer todas as terras do pai. Tinham a mesma idade. Um dia o coronelzinho exigiu que ele abrisse a boca, pois queria mijar dentro. O pajem abriu. A urina do outro caía escorrendo quente por sua goela e pelo canto de sua boca. Sinhô-moço ria, ria. Ele chorava e não sabia o que mais lhe salgava a boca, se o gosto da urina ou se o sabor de suas lágrimas. Naquela noite teve mais ódio ainda do pai. Se eram livres, por que continuavam ali?” Pág.:17

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4) HISTÓRIAS DE LEVES ENGANOS E PARECENÇAS – Conceição Evaristo e suas obras

CONCEIÇÃO EVARISTO - HISTÓRIAS DE LEVES ENGANOS E PARECENÇAS

Se você já leu alguma obra de Conceição Evaristo e espera encontrar nesse livro aquela crítica necessária às injustiças que acometem a população negra e a contundente indiferença vivenciada a cada ato de racismo, pode trocar a lente, acalmar as expectativas, porque você está prestes a embarcar numa obra que foge desse pano de fundo. E o que iremos assistir é uma autora se permitindo ao inusitado, estranho e imprevisível.

Leia:

“(…) Na hora da comunhão, o rosto de Dóris se iluminou. Uma intensa luz amarela brilhava sobre ela. E a menina se revestiu de tamanha graça, que a Senhora lá do altar sorriu. Uma paz, nunca sentida, inundou a igreja inteira. Ruídos de água desenhavam rios caudalosos e mansos a correr pelo corredor central do templo. E a menina ao invés de rezar a Ave-Maria, oração ensaiada por tanto tempo, cantou outro cumprimento. Cantou e dançou como se tocasse suavemente as águas serenas de um rio. Alguns entenderam a nova celebração que ali aconteceu. A avó de Dóris sorria feliz. Dóris da Conceição Aparecida, cantou para nossa outra Mãe, para nossa outra Senhora”.  Pág.: 24/25

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5) BECOS DA MEMÓRIA – Conceição Evaristo e suas obras

Trata-se de um romance de 170 páginas, o primeiro da autora que ficou engavetado durante 20 anos, recebendo a luz após Ponciá Vicêncio que já foi apresentado. Diz a autora que só resolveu publicá-lo após insistentes pedidos de amigas e amigos que o leram alguns anos antes. Nesse romance, Conceição transporta para a literatura a tensão do cotidiano de quem está submetido as diversas formas de violência. Apresenta a cor da pobreza no meio urbano sem a suavidade de quem nunca sentiu o que escreve. Mostra a necessidade da cabeça erguida e o compromisso com a transformação, com a educação-conhecimento que torna o indivíduo na coletividade, capaz de acreditar em si, conhecer as injustiças causadas pelas faltas de políticas públicas que equilibrem situações de desigualdades.

Vale a pena ler, saiba por que:

“(…) Nesta época, ela iniciava seus estudos de ginásio. Lera e aprendera também o que era casa-grande. Sentiu vontade de falar à professora. Queria citar como exemplo de casa-grande, o bairro nobre vizinho e como senzala, a favela onde morava. Ia abrir a boca, olhou a turma, e a professora. Procurou mais alguém que pudesse sustentar a ideia, viu a única colega negra que tinha na classe. Olhou a menina, porém ela escutava a lição tão alheia como se o tema escravidão nada tivesse a ver com ela. Sentiu certo mal-estar. Numa turma de quarenta e cinco alunos, duas alunas negras, e, mesmo assim, tão distantes uma da outra. Fechou a boca novamente, mas o pensamento continuava. Senzala-favela, senzala-favela”!

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About the author

Léo O'Bento é educador, produtor cultural e ultimamente tem a estranha mania de transformar sonhos em realidades.

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