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11 Livros de Contos Negros – InaLivros Listas

CAPA - 11 livros de contos negros

Dessa vez elaboramos uma lista quentíssima com 11 livros de contos negros que você precisa conhecer. São livros com protagonismo negro na escrita e nos personagens (todos trazem as vivências de pessoas negras em destaque). Você irá se encantar, se identificar e conhecer mais sobre o cotidiano da população negra retratado literariamente sem estereótipos ou inferiorizações.

Confira a lista:

1) OLHOS D’ÁGUA

contos negros - olhos d'água

 O olho cheio de água que compõe a capa dessa obra não anuncia o soco, o pontapé e aquela cusparada na cara que está por vir. Os textos reunidos nessa obra, outrora publicados nos Cadernos Negros, machucam e maltratam. Todavia, apresentam de forma elegante e necessária, as mazelas que muitos fingem não ver. Se assustou com a apresentação? Não se intimide, Conceição é uma autora que precisa ser lida e entendida. Vamos lá, coragem!

conceição evaristo

Sobre a autora: Conceição Evaristo é mestra em Literatura Brasileira pela PUC-Rio, e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Professora, pesquisadora e referência em literatura negra brasileira. Seus livros já foram premiados e  traduzidos para diversas línguas.

Onde encontrar: InaLivros

 

2) O TAPETE VOADOR

contos negros - o tapete voador

 O Tapete Voador, título que também nomeia um dos instigantes contos de Cristiane Sobral, apresenta as inquietações e a aceitação de normas impostas historicamente à negras e negros no Brasil, mas que pode ser ampliado para todos que sofreram o processo diaspórico nas américas. A negação de sua identidade e a do grupo ao qual pertence para ascender socialmente, ainda é uma tônica em determinados meios. Em contrapartida, essa visão vem se alterando de forma cada vez mais rápida na sociedade brasileira. E essas mudanças estão de acordo com a valorização da identidade negra e suas vivências que estão retratadas no cotidiano em que se inserem os textos desse livro, bem como as críticas direcionadas àqueles que não satisfeitos em serem estigmatizados, resolvem também colocar em prática o mito do homem negro sensual e procriador.

cristiane sobral

Sobre a autora: Cristiane Sobral é atriz, escritora e poeta. Estudou teatro no SESC do Rio de Janeiro, em 1989. Estreou na literatura em 2000, publicando textos nos Cadernos Negros. Foi crítica teatral da revista Tablado, de Brasília. Fez mestrado em Artes e pós-graduação em Educação com ênfase no ensino de Artes. Trabalhou como Assessora de Cultura da Embaixada de Angola no Brasil.

Onde encontrar: InaLivros

 

3) MULHER MAT(R)IZ

contos negros - mulher matriz

 A obra Mulher Matriz reúne contos escritos e publicados ao longo dos mais de 20 anos que a autora tem dedicados a literatura negra. Miram Aves deu espaço em seus textos às mulheres negras em sua diversidade, expressando relações de amor, vivências, afetividades e muitas paixões femininas.

mirian alves

Sobre a autora: Miriam Alves é escritora e poeta com uma longa trajetória literária. Participa frequentemente de debates e palestras em universidades nacionais e estrangeiras com temas vinculados às questões da literatura negra com ênfase especial a  literatura negra feminina.

 

 

4) SÓ AS MULHERES SANGRAM

contos negros - só as mulheres sangram

Só as Mulheres Sangram nos apresenta os dilemas de um cotidiano negro urbano e rural, onde as principais vivências retratam a mulher negra em diversos espaços geográficos, tais como as ruas, interior, presídios, morros e favelas. Mais um livro de contos negros focado na vivência feminina negra em sua multiplicidade.

lia vieira

Sobre a autora: Lia Vieira é escritora e doutora em educação, com longa trajetória literária. Possui outras obras publicadas, assim como textos, tanto em livros individuais, como em coletâneas como os Cadernos Negros.

 

 

5) CASA DE PORTUGAL

contos negros - casa de portugal

Em sua estreia com os contos reunidos em um livro autoral, o autor já calejado em publicar seus textos nas coletâneas dos Cadernos Negros nos traz aquelas lembranças gostosas que as reuniões de famílias pretas enormes nos proporcionam.  São contos que remetem àquele papo furado do ponto de ônibus, e o que falar daquela partida de futebol no campinho da esquina onde temos de um lado o time dos casados e do outro o dos solteiros? Casa de Portugal é um prato cheio de afetos e contradições, por isso não poderia faltar nesse seleção de livros de contos negros.

SERGIO ballouk

Sobre a autor: Sergio Ballouk é formado em Publicidade e Propaganda pela Cásper Líbero, fez Pós-graduação em Gestão Pública pela Universidade Mogi das Cruzes e participou do curso de Criação Literária – Museu Lasar Segall.

 

Onde encontrar: InaLivros

6) CONTOS ESCOLHIDOS

contos negros - contos escolhidos

Temas como amor, ódio, amizade, indiferença e tantos outros alimentam os contos aqui publicados. O autor demonstra as formas como o racismo, seja ele dissimulado ou não, atravessam as situações vivenciadas por seus personagens. O leitor encontra um acúmulo de retratos bem elaborados das desvirtudes que acometem milhões de brasileiros. O livro trás uma seleção de contos escolhidos dentre a sua ampla produção literária e recomendamos como uma forma de conhecer um pouco da obra em prosa do autor.

 

CUTI

Sobre a autor: Cuti formou-se em Letras (Português-Francês) na Universidade de São Paulo, em 1980. Mestre em Teoria da Literatura e Doutor em Literatura Brasileira pelo Instituto de Estudos da Linguagem – Unicamp (1999-2005). Foi um dos fundadores e membro do Quilombhoje-Literatura, de 1983 a 1994, e um dos criadores e mantenedores da série Cadernos Negros, de 1978 a 1993.

 

Onde encontrar: InaLivros

 

 7) O REGRESSO DO MORTO

contos negros - O regresso do morto

A primeira edição de ” O regresso do Morto” foi publicada em 1989, chegou nesses lados de cá da “Calunga Grande”, em 2016. O único autor estrangeiro nessa seleção, Suleiman aborda em seus contos o cotidiano de pessoas pobres das cidades, dos campos e de mineiros que fazem longas viagens para tirar seu pouco sustento e que alimentam diversas fantasias. A dor e a resistência também têm lugar em seus textos ao abordar a violência que é sobreviver em condições subumanas. Pra quem tem interesse em conhecer um pouco sobre a literatura africana, especificamente a moçambicana, indicamos esses contos negros.

SULEIMAN

Sobre a autor: Suleiman Cassamo é de Moçambique. Escritor e professor, tem licenciatura em Engenharia Mecânica e é membro da Associação de Escritores Moçambicanos.

 

Onde encontrar: InaLivros

8) REZA DE MÃE

contos negros - Reza de mãe

Mais uma vez o Allan da Rosa nos surpreende com a sintaxe repleta de originalidades. Suas personagens vivenciam realidades periféricas encontradas facilmente na cidade de São Paulo, mas que poderiam refletir qualquer  periferia das capitais brasileiras, sem perder o valor que compõe cada texto. Valor esse que traz o cotidiano das ruas, quintais, becos, vielas, campos de várzea e outros espaços comuns à população negra.

ALLAN.1

Sobre a autor: Allan da Rosa é formado em História e tem mestrado em Cultura e Educação. Autor, entre outros, de A Calimba e a Flauta – Versos Úmidos e Tesos (livro-CD de poesia erótica, com Priscila Preta, 2002), Pedagoginga, Autonomia e Mocambagem (Ensaio sobre Cultura Negra e Educação Popular, 2013) e Mukondo Lírico (livro-CD, com Giovanni Di Ganzá, 2014).

Onde encontrar: InaLivros

 

9) CIRCO DE PULGAS

contos negros - Circo de Pulgas

Circo de Pulgas nos aproxima tanto do Rio de Janeiro ao nos apresentar os Aruandas, Toquinha, Sete, Pincel, Elvis, personagens que ora estão na Lapa, Pedra do Sal, Senador Camará e outros cantos da cidade. O livro nos faz ter sensações tão diversas que podem ir desde a risada desmesurada quando Bento dá uma volta no editor e publica o ‘Mundo Bizarro de Beato Salu’, até a emoção de presenciar Zé Menino tocando bandolim no velório de Dona Menininha. Um livro de contos negros repleto de personagens marcantes, que ganham vida na narrativa leve e descontraída de Manto Costa.

MANTO

Sobre a autor: Manto Costa é jornalista, historiador e escritor. Iniciou a carreira literária publicando um romance logo de cara, Meu Caro Júlio. Depois participou da antologia Terra de Palavras e sua obra mais recente foi Circo de Pulgas.

Onde encontrar: InaLivros

10) O CARRO DO ÊXITO

contos negros - O carro do êxito

Essa é uma edição revisada do livro que marcou a estreia de Oswaldo de Camargo nos contos, em 1972. Detentor de uma técnica refinada traz em um de seus contos, Maralinga, a ingenuidade do menino pequeninho que é deixado pelo pai, recém-viúvo, na casa de um doutor que irá cuidar para que “se torne alguém na vida”. Não poderia faltar nesse seleção de contos negros uma obra de Oswaldo de Camargo, um dos principais e mais longevos  escritores negros brasileiros.

osawaldo

 

Sobre o autor: Oswaldo de Camargo é jornalista, poeta, contista, novelista e músico. Foi um dos fundadores da coletânea Cadernos Negros e acumula prêmios por sua atuação literária. Atua como consultor, revisor e palestrante. 

Onde encontrar: InaLivros

 

11) MUITO COMO UM REI

 

contos negros - Muito como um Rei

De forma direta, Fábio Mandingo aborda as violências, amores não correspondidos, feridas e poucas alegrias nos contos de Muito como um Rei. Seu retrata as suas vivências nas periferias de Salvador.

Fábio Mandingo 2

Sobre a autor: Fábio Mandingo aprendeu a fazer ele mesmo, ao som do punk rock, virou homem na Capoeira e no Axé.  Pós-graduando em História Social do Negro. Publicou os livros de contos: Salvador Negro Rancor (2011), Morte e vida Virgulina (2013) e Muito como um rei (2015).

Onde encontrar: InaLivros


Ufa! Quanta coisa boa. A seleção que fizemos apresenta diversas interpretações e olhares sobre as vivências da população negra. Esperamos ter auxiliado a ampliar o olhar sobre novas escritas e abordagens sobre a produção literária de autores negros.  Outros livros de contos negros podem ser encontrados em nossa  loja virtual.

E se você chegou até aqui em nossa listinha, não custa nada nos dizer um que você já leu. Ou até mesmo nos indicar outros livros e autores. Vamos lá, é rapidinho…

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Autora do Mês – Maio – Cristiane Sobral

A InaLivros começa esse mês uma série de conversas sobre obras e autores. Vamos conhecer melhor o processo de criação de determinadas obras. A escolhida do  mês de maio foi a autora Cristiane Sobral, autora do livro Espelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção, obra escolhida para o clube de leitura Leia Mulheres Negras, realizado pela página do facebook Leia Mulheres Negras com o apoio da InaLivros.

Lu Bento: Cristiane, quando nós da InaLivros pensamos este espaço, o Quilombo Literário, a motivação inicial foi de busca por uma literatura que falasse das questões vividas pelas população negra, uma literatura que nos colocasse em posição de protagonismo e que se apresentasse ao mundo a partir de um ponto de vista afrocentrado, ou de um ponto de vista de um pessoa negra. Pra gente, isso se reflete em uma busca por uma literatura negra. Então eu vou começar com a pergunta que a gente sempre faz para os nossos convidados: Existe um literatura negra? O que é literatura negra pra você? IMG_8032

Cristiane Sobral: Não afirmo apenas uma literatura negra, em minha opinião a literatura negra tem diferentes contornos a partir de cada escritor, embora os elementos, as ferramentas de escritas sejam coincidentes, existe literatura negra, sim, há tempos. Seu marco oficial no Brasil aponta para o século XIX. Vários estudiosos da literatura, como o Prof. Dr. Eduardo de Assis Duarte, da UFMG tem traçado essa linha do tempo e apresentado grandes expoentes desse nicho de produção.

O que é literatura negra na minha concepção?

Uma literatura interessada na subjetividade negra, nas suas memórias, histórias, tradições, engajada na contação de histórias da negritude e sua ancestralidade. Nessa literatura, os escritores negros falam de si, desafiando as visões estereotipadas apresentadas pela literatura “universal”, no que se refere à representação dos personagens negros.
Na literatura negra, que pode ser encontrada com outros nomes como afro-brasileira, afro-descendente, negro-brasileira, só para citar alguns, existimos além do escravagismo e do seu legado no Brasil: Somos seres humanos, diversos, Não existe um protocolo para ser africano ou afro-brasileiro, nossa identidade é múltipla, em construção contínua, amamos, lutamos, pensamos, além da diáspora negra, com a nossa mitologia, ciência, religião, temos o direito de contar as nossas versões diante da “história única”.
Não basta ser negro para produzir literatura negra, há um compromisso estético e político nessa escrita, existem escolhas conscientes do autor, no sentido da intencionalidade da obra.

Lu Bento: Você já tem uma trajetória de escritora com textos seus publicados no Cadernos Negros, livros de poemas, e o “Espelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção” foi seu primeiro livro de contos individual publicado. “Pixaim”, o conto que abre este livro, já havia sido publicado nos Cadernos Negros. Quais outros contos já haviam sido publicados? Você já tinha o esboço dessa estruturação do livro, ou você foi percebendo as ligações entre os textos ao longo do processo de criação?

Espelhos
Cristiane: Os outros contos que já tinham sido publicados são: “Garoto de plástico”, “Cauterização”, “A Discórdia do Meio”, “O Buraco Negro”, “Bife com Batata Frita”, e “O Último Ensaio Antes da Estreia”. A estruturação do livro foi totalmente intencional e programada.
Quando resolvi publicar um livro de contos, comecei a tramar um tecido que fosse combinado, pensando nos diálogos possíveis entre os textos e temáticas.

Lu Bento:  O livro “Espelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção” nos provoca a pensar sobre identidade, sobre visibilidade da população negra e principalmente sobre relações. É um livro que trabalha o tempo todo com as noções de ver e ver visto, em diferentes níveis. A própria ideia de espelhos que perpassa toda a obra nos guiando para uma leitura reflexiva, partindo de uma visão-reflexão sobre à aparência e de questões relacionadas à estéticas, passando por uma visão-reflexão de temas relacionados a afetos, até uma visão-reflexão sobre questões psicológicas e existenciais. O que te motivou a escrever sobre esses temas?

Cristiane: A subjetividade negra, o corpo negro, são temas que têm sido pouco abordados e de forma estereotipada em nossa literatura, as nossas obras têm raros exemplos de vivências das personagens negras fora do contexto da escravatura, humanizadas, com experiências e voz. Quero saber mais sobre a negritude além do contexto do escravagismo, quem são essas pessoas, onde estão, os seus sonhos e desafios… Também as lacunas na nossa ancestralidade, os antepassados que não conhecemos, nossas raízes apagadas, a diáspora é um grande mar com muito conteúdo, muita riqueza submersa.
Isso me motiva e fomenta a minha escrita.

Lu Bento: Os nomes dos seus personagens se repetem em alguns contos e são muito contextualizados. Os Augustos negros, as meninas Ioli, as mulheres Socorros que realmente precisam de ajuda, a Celeste, o Maurício, a Olga… São nomes especiais pra você de alguma forma? Essa é uma preocupação sua ao escrever, nomear as personagens de modo que demonstre através do nome um pouco da personalidade delas?

Cristiane: Sim, não escolho nomes ao acaso, na verdade os nomes são geradores e intensificam a construção das personagens, levo muito tempo para escolher os nomes, não concluo um texto enquanto não acho um nome adequado. Sim, são nomes especiais, personalidades que dão vida à ficção.

Lu Bento: A primeira parte, “Espelhos”, fala muito sobre negritude e a falta de reconhecimento dessa negritude. Em “Pixaim” a menina tem sua negritude camuflada pelo alisamento dos cabelos, mesmo contra seu desejo. Em “Garoto de Plástico” e “Cauterização”, as personagens estão presas a um modelo embranquecido de existência até conseguirem olhar para si mesmos e perceberem sua negritude. Em “Maria Clara” a menina tem a sua negritude negada para ser aceita como filha de um casal branco. Em “A Discórdia do Meio” há uma relação tensionada entre irmão pelo fato de uma ser negra e o outro ser mestiço e ambos terem que lidar com essas identidades raciais. Enfim, gostaria muito que você falasse brevemente sobre os textos desta parte do livro.

Cristiane: Nessa parte do livro, as identidades estão em confronto com a realidade cotidiana do enfrentamento do racismo em nosso país, cada um com suas escolhas, perspectivas, mas sempre instigados ao conflito, com a possibilidade de ruptura. Quanto mais a consciência racial e o autoconhecimento, maior o empoderamento das personagens.

Os personagens têm muitos desafios alguns tomaram um caminho diferente conforme se deu o processo de escrita, percebi que isso faz sentido, considerando o meu interesse em construir histórias além dos maniqueísmos de bem e mal. É preciso ouvir a voz dos personagens no processo de composição literária e exercitar o desapego. Em certas passagens, a realidade é hiper realista, surrealista, beira o absurdo, em muitos momentos senti a necessidade de romper algumas convenções que extrapolam o realismo, para que os confrontos pudessem existir e provocar o leitor.

Lu Bento: A segunda parte, “Miradouros”, creio que os encontros e desencontros perpassam todos os textos. Eles nos convidam a refletir sobre desejos e sobre transformações em modos de ver a vida e as relações interpessoais. Os protagonistas passam por situações que lhes possibilitam uma mudança de atitude diante de uma situação. Qual era a sua expectativa com os textos desta parte?

Cristiane: Miradouro é um local de onde se pode enxergar, mirar, um horizonte largo. Nessa parte do livro, os personagens vão se resolvendo no percurso. São convidados a nascer. Nos três últimos contos, há certa névoa no horizonte, é difícil para cada um dos protagonistas, que parecem perdidos, a visualização de saídas, mas eles mergulham em si mesmos. Quando parecem derrotados, encontram o seu próprio caminho. Gosto muito dos mistérios que envolvem as histórias das pessoas, seus paradoxos, as especificidades que compõe cada indivíduo, sua sombra e sua luz.

Lu Bento: A terceira parte, “Dialéticas da Percepção” tem seu foco na morte e na solidão. Todos os contos tangenciam esse tema de uma maneira muito intensa, e trabalham de alguma forma o olhar para si mesmo. Eu destaco especificamente no último texto, a fala do personagem Pedro:”Se você se enxerga diante de um espelho negro, aprenderá a conviver com as suas sombras, com as suas luzes, alterando a sua percepção.”. O que você tem a falar sobre essa terceira parte do livro?

Cristiane: Esse último portal é um caminho de dor, sentimento inevitável diante da invisibilidade do negro nesse país, da exclusão social, da solidão da mulher negra, da exploração do corpo do homem negro, da sua sexualidade, do capitalismo e dos seus mecanismos de padronização dos sujeitos. Mas a morte e a dor também são reveladas além do pensamento judaico cristão, a morte dos sujeitos aí, também tem seu desabafo, nem sempre como uma rendição diante das dificuldades. Alguns contos permitem a reconstrução, a resiliência diante da dor, mas outros não. A tridimensionalidade humana é destacada, sem maniqueísmos de mal e bem.

Lu Bento:  O livro está dividido em 3 partes, cada uma com 7 contos. Acredito que essa estruturação não foi por acaso, e gostaria que você falasse um pouco sobre isso. O número 7 me remeteu imediatamente a ideia de 7 anos de azar, relacionadas a quebra do espelho. Em cada uma das partes há um texto que provoca um quebra em relação aos demais. Na primeira parte, creio que o texto “O buraco negro” traz essa quebra ao falar de uma depressão e sua superação. Na segunda, “Homem bom entregador de pizza” talvez exerça essa função e na terceira, “Espelho negro” fala de uma mudança da perspectiva de reflexão, da aparência/estética para os reflexos de espelhos negros, que refletem memórias e ancestralidade. Essa é uma visão pessoal minha. Você pensou em alguma dessas coisas eu escolher essa estrutura para o livro?
Tudo nesse livro foi milimetricamente pensado. 21 contos, que são reduzidos na numerologia ao número 3, número chave no processo da criatividade e da comunicação. Novamente temos o 3, pois o livro tem três capítulos, três portais que vão além da dualidade do mal e do bem, eu queria muito propor isso.

Cristiane: Quanto ao número 7, ele fecha e abre muitos ciclos, sete dias da semana, sete cores do arco-íris, sete orixás na umbanda, cada período lunar tem sete dias, enfim. Eu quis trabalhar com ciclos, sete contos, em três portais, totalizando 21 contos, o três novamente, símbolo mágico da comunicação, corpo, mente e espírito. Três é um número ótimo pra quem quer trocar ideias e escrevi o livro considerando essas perspectivas.

Outro aspecto. Os sete contos foram agrupados intencionalmente, o primeiro portal, Espelhos, aborda os desafios da identidade, o segundo, Miradouros, revela identidades em confronto com a perspectiva de mudança, seus desafios e no terceiro portal, a morte é um caminho para a vida, para a transformação. A morte também revela a necessidade do momento limite, no qual precisamos mudar o estado das coisas. Em todos os contos aparece a palavra espelho, isso foi proposital.

Lu Bento: Meu conto favorito no livro é Olga. A construção complexa da personagem e a sua reviravolta me chamaram muita atenção. Você tem um conto favorito? Ou um conto que foi mais tranquilo de escrever, ou que você gostaria de destacar de alguma forma?

Cristiane: Não tenho um conto favorito, é difícil escolher. Cada um tem um aspecto que me fascina, pelo bem ou pelo mal, além disso, me provocam, são pessoas que eu gostaria muito de encontrar e conhecer, isso me desafia a escrever, a contação de histórias, a invenção. Olga por exemplo, que loucura, eu não sabia onde ela poderia chegar, tão inesperada, amo a sua impulsividade e o desapego diante das situações. Alguns personagens me incomodam também, outros provocam profunda reflexão. Depois que escrevo procuro me distanciar e ler novamente, como leitora. É sempre um aprendizado.

Lu Bento: Vamos a mais um pergunta padrão da InaLivros: Nós queremos muito estimular novos escritores. Desde quando a gente começou a conversar com autores, quase sempre um outro escritor teve um papel fundamental no incentivo para a publicação. Quem te incentivou, te encorajou a começar a publicar? Ou a continuar publicando, ou a publicar livros autorais e não só permanecer publicando em coletâneas?

Cristiane: Minha mãe Marina, foi uma grande incentivadora, professora de formação e dona de casa por decisão. Era muito exigente com as tarefas escolares e eu, sempre interessada pelas letras, a ponto de deixar as bonecas de lado, fui instigada por ela a respeitar a língua portuguesa e a me colocar diante dela como eterna aprendiz, sempre querendo mais, lendo mais, indo mais fundo. Meu pai, ávido leitor e cinéfilo, despertou o amor pelas histórias nos filmes, de certa forma a minha preocupação com a construção de imagens vem daí, porque assisti muitos filmes e ouvi muita música boa em casa. A música me deu o sentido do ritmo e da sua importância na construção tanto da poesia, quanto da prosa. Mas eu tinha um incômodo no que se refere a representação das personagens negras, o Quilombhoje foi muito importante pois conheci autores produzindo em outra dimensão, com outro ponto de vista no que se refere à construção da subjetividade negra na literatura. Com o grupo comecei a publicar, em 2002, incentivada por uma amiga angolana, Alexandra Aparício, historiadora, Diretora da Biblioteca Nacional na altura, intelectual e mulher feminista aguerrida, com quem compartilhava meus escritos, guardados há anos, a sete chaves. Quando comecei a publicar tive muito retorno do público leitor, isso me instigou muito a continuar escrevendo, lendo, refazendo a minha escrita.

Lu Bento:  Seus textos falam muito sobre a solidão da mulher negra. São muitas mulheres solitárias ou com relacionamentos problemáticos. Qual é a importância de ficcionalizar esse tema que é tão frequente na realidade das mulheres negras?

Cristiane: Sim, precisamos falar sobre as nossas dores, amores, também sobre as nossas vitórias. Vivemos um longo período de silenciamento, não havia tempo para falar, os corpos das mulheres negras estiveram sempre a serviço de outrem. E a dor é apenas um dos aspectos, quero ir mais fundo, no que se refere à subjetividade da mulher negra, precisamos aprender a gostar mais de nós mesmas, conversar, ficcionalizar, inventar e reinventar nossas vidas, a literatura é um portal. Existem muitos cenários de invenção para as mulheres negras, isso me interessa. Continuo atenta.

Lu Bento:Você já está preparando um novo livro? Você já publicou poesias e contos. Pensa em escrever um romance?

Cristiane: Estou preparando um livro de poesia, está quase pronto, pra esse ano ainda. Também estou finalizando a 3ª edição do “Não vou mais lavar os pratos”, revisada e com poesias novas. Sairá em 2016 também, junho ou julho. O livro de poesia “Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz, está com a 1ª edição no fim, demanda nova edição com urgência. Tenho duas peças de teatro prontas, não sei se tenho pernas pra publicar esse ano, mas quero negociar com outras editoras, porque ainda cuido de toda essa demanda de publicação na minha editora atual e quero ter mais tempo pra me dedicar à escrita. Também tenho dois infantis em fase de finalização. Pretendo lançar um romance há tempos. Para o romance, quero dedicar mais tempo, não tenho previsões, quero destruir ainda muito papel anteponcia_vicêncios de chegar ao ponto da publicação.

Lu Bento: Pra fechar, que livro você acha que todo mundo deveria ler, e porque?
Cristiane Sobral: Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo. Leiam e descubram sua potência. Contundente, avassalador, toca no fundo da alma, onde devem adentrar as grandes obras.

Lu Bento: Muito obrigada Cristiane!

 


Espelhos, MIradouros e Dialéticas da PercepçãoEspelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção

Cristiane Sobral

Ed. Dulcina

2011

 Compre aqui: InaLivros

 

 


Cristiane Sobral é escritora, atriz e pesquisadora, já publicou os livros Não vou mais lavar os pratos (poemas, 2011), Só por hoje vou deixar meu cabelo em paz (poemas, 2014), Espelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção (contos, 2011) e participou de diversas antologias. Para saber mais sobre a autora e suas obras, acesse o blog: http://cristianesobral.blogspot.com.br

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